sábado, 13 de julho de 2013

ESPERANÇA EM MEIO A ADVERSIDADE - EBD / CPAD - Subsídio Teológico - Pr. Altair Germano




O evangelho de Jesus Cristo promete ao homem que verdadeiramente crê nele e o ama que, sejam quais forem suas circunstâncias e condições, e seja o que for que esta ou aquela pessoa faça, sua alegria pode permanecer, e permanece.” (Martyn Lloyd-Jones)

As prisões fizeram parte da vida e ministério de Paulo (At 16.23-26; Rm 16.7; 2 Ef 3.1; 4.1; Co 6.4-5; 11.23; Fl 1.12-14; Cl 4.10; Fm 1; 9; 23). A pregação do Evangelho aos filipenses foi marcada por prisões (At 16.16-40), e agora Paulo lhes envia uma carta estando preso (Fp 1.12-14). 

TRANSFORMANDO A ADVERSIDADE EM OPORTUNIDADE

As prisões de Paulo foram adversidades que se transformaram em oportunidades para a pregação do Evangelho. Carcereiros, guardas, presos e visitantes puderam ouvir o testemunho da vida, morte e ressurreição de Jesus através de Paulo. O apóstolo dos gentios não apenas aproveitou a oportunidade, mas em Cristo, na graça e no poder do Senhor, manteve o ânimo necessário para não esmorecer na fé, e ainda fortalecer outros com o seu exemplo. Regozijo (chairo) e alegria (chara) são termos comuns nesta epístola (Fp 1.4, 18; 2.2, 17-18,28- 29; 3.1; 4.1, 4, 10). Há algo de paradoxal no estado de espírito do apóstolo, que consegue mesmo entristecido, se alegrar (2 Co 6.10). Não se trata aqui de autoajuda para vivenciar tal realidade, mas da ajuda do alto.

Lloyd-Jones, ao comentar sobre as prisões de Paulo, afirma:

Mais cedo ou mais tarde na vida, todos nós topamos com circunstâncias adversas, e nos vemos nalgum tipo de prisão. Pode ser um leito de enfermidade, ou um hospital; pode ser um acidente; pode ser uma aflição ou uma tristeza. Alguma coisa nos colocou ali: estamos nessa prisão e não podemos evitá-la. Para nós, o importante é saber, antes de chegarmos lá, o segredo de como vencer tal prova, de como podemos ter esta alegria no Senhor, apesar das circunstâncias, como superá-las todas, como derrotá-las; como podemos ter suprema superioridade sobre elas.[1]
Quantos neste exato momento não se encontram presos de corpo e alma, sem ação, prostrados em camas, cativos em seus quartos, acorrentados em cadeias emocionais, prisioneiros em seu próprio ser, imobilizados pelas circunstâncias adversas da vida, paralisados pela perda de alguém amado. Paulo era humano como eu e você, e estava sujeito aos sentimentos listados acima. O seu segredo? Bem, o seu segredo vinha de duas direções. Em primeiro lugar vinha de cima, do Senhor: “ [...] tudo posso naquele que me fortalece.” (Fp 4.13). Em segundo lugar, vinha do lado, dos irmãos e amigos amados: “Todavia, fizestes bem, associando-vos na minha tribulação.” (Fp 4.14). Sim, para superarmos as adversidades, para vencermos as prisões, para nos alegrarmos em cadeias, precisamos do Senhor e uns dos outros. O salmista expressa muito bem tal verdade ao declarar: “O Senhor está comigo; não temerei. Que me poderá fazer o homem? O Senhor está comigo entre os que me ajudam; [...]” (Sl 118.6-7a). Ainda no plano horizontal, Paulo se regozijava, pois os seus sofrimentos e prisões resultavam em conversões e transformações de vidas[2], ou seja, no progresso do evangelho (Fp 1.12, traduzido na ARC por “proveito do evangelho”):

No original, a palavra traduzida por “progresso” é um termo militar que retrata trabalhadores com machetes e machados abrindo caminho através da mata, a fim de preparar a passagem para o exército. Era de máxima importância abrir caminho para o exército avançar. [...] No versículo 25, o “progresso” que Paulo espera ver na igreja filipense se refere ao crescimento deles na fé e na maturidade espiritual. Aqui ele fala no “progresso do evangelho” no sentido de o evangelho “se tornar conhecido em toda a guarda pretoriana” (v. 13).[3]

 A nossa perspectiva sobre as circunstâncias influenciará nossas ações e reações. Paulo nos ensina como alguém que colocou Cristo no centro absoluto de sua vida deve se portar diante das adversidades.[4]

Com a ajuda do Senhor e dos amigos, superaremos todas as lutas e prisões que querem nos deter, que tentam nos fazer parar na caminhada.

MOTIVAÇÕES PARA A PREGAÇÃO DO EVANGELHO

Em meu livro Uma Liderança com Saúde, publicado pela Arte Editorial, contextualizo o problema das motivações para a pregação do evangelho. Segue abaixo o texto na íntegra:

Sempre que discuto a questão que envolve as motivações para a pregação do evangelho na atualidade, que além de inveja e porfia inclui o interesse financeiro-mercadológico, e outros mais, escuto pessoas citarem Paulo: “Contanto que Cristo seja anunciado...”. 

Fazendo uma breve análise sobre a questão, fica claro que Paulo entendia que a pregação do evangelho, que em si mesmo é poderoso (Rm 1.16), resultaria na salvação de vidas. Dessa maneira, é preciso separar os resultados da pregação, da prestação de contas que o pregador fará a Deus.

Com certeza, ao longo dos séculos, independentemente de quem   o pregue e de suas reais motivações, o evangelho tem transformado e libertado vidas. Tal fato, é bom deixar claro, não justifica as reprováveis intenções dos seus mensageiros.

Aqueles que nos dias de hoje estão buscando “lucrar” com a pregação do evangelho, e com isso fazendo crescer os seus impérios pessoais (ou institucionais), no devido tempo serão tratados e cobrados por Deus. Ninguém se engane, pois os resultados em números de conversões em nada diminui a responsabilidade pessoal de quem lida com o Reino de Deus, como se esse fosse negócio, comércio e campo de batalhas pessoais ou ministeriais.

Nesse sentido, as disputas fugiram do campo pessoal para o institucional, onde vários templos são construídos por causa de pirraças, birras, intrigas e competições entre ministérios locais, convenções estaduais e nacionais. A motivação de alguns há muito deixou de ser a glória de Deus e passou a ser demonstrar a forçar pessoal, ministerial ou financeira, ou defender o seu “pedaço de terra”, sua “capitania hereditária”, seu “feudo” ou “campo”. Neste contexto, muitas justificativas são dadas por quem “invade” e por quem “se defende do invasor”. No final de tudo, tenho a certeza de que o Justo Juiz saberá tratar de cada questão. 

O princípio da advertência quanto aos falsos profetas cabe aqui também, pois os mesmos serão julgados por suas intenções ou disposição interior (Mt 7.15), pelo que se passa em seus pensamentos e motivações. Não é a simples aparência do fruto (obra ou realização), embora isso, dependendo do contexto tenha a sua devida importância, mas é a sua essência que prova se de fato possui boa qualidade (Mt 7.16-20):

Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demônios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas? E, então, lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade. (Mt 7.21-23)

Uma prática iníqua é resultado de uma intenção ou motivação iníqua.

No momento, diante da diversidade de interesses que norteiam a pregação do evangelho, associada a nossa incapacidade de conhecer plenamente as intenções e motivações dos pregadores e dos construtores de templos, fiquemos com o que Paulo escreveu: “Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento, ou em verdade, nisto me regozijo e me regozijarei ainda.”

Não nos esqueçamos, contudo, de continuar orando por todos.[5]

Entre pregadores (ou conferencistas) há também disputas, e quem deseje “brilhar” mais do que o outro, ser o “cara” da vez. O lema destes é: “Importa que Jesus cresça, e eu também!”. Sobre isto, também escrevi em Uma Liderança com Saúde.[6]

Tenhamos a mesma postura e atitude do apóstolo Paulo. Se a inveja e a porfia forem as motivações de quem quer seja na pregação do evangelho ou na implantação de igrejas, deixemos isto com o Senhor, e avancemos fazendo o que Ele nos mandou realizar, utilizando os recursos espirituais, pessoais, financeiros e materiais que dispomos, providos em graça por Ele, Senhor de tudo e de todos.

VIVER OU MORRER?

Que é a vida? Que é viver? Lloyd-Jones apresenta em seu comentário sobre a Epístola de Paulo aos Filipenses alguns conceitos filosóficos sobre a vida.[7] São eles: 

O Conceito Epicureu. Aqui a vida é sinônimo de prazer: comer, beber, dançar, etc. (curtir é um termo atual que se encaixa bem no significado de vida para os epicureus).

O Conceito Estóico. Para o estoicismo a vida é algo que temos que suportar. Viver implica na necessidade de sobrepor-se às tragédias.

O Conceito Cínico. A vida não tem sentido. Viver é viver errante, seguindo o curso da natureza. Aqui cabe bem a ideia de vida do tipo “deixa a vida me levar, vida leva eu.”

O Conceito Místico. A ideia típica do místico é que a vida e todos os seus males têm como causa suprema a carne, e que a salvação se acha em ele sair da carne e em não se identificar com ela. Sua atitude em relação ao mundo é meramente passiva.

O Conceito Humanista. Para o humanismo viver significa uma oportunidade de fazer o bem, de melhorar o mundo e de promover a elevação do estado da sociedade.

O Senso Comum. O conceito do homem comum sobre a vida, é que ela consiste em nossas famílias, nossos lares, nosso trabalho, nossas ocupações, nossas atividades, nosso viver diário. Estando o valor maior da vida nas coisas aqui listadas, quando são tiradas de nós, a nossa vida no mundo entra em colapso e ficamos sem nada.

Quando Paulo fala em “o viver é Cristo”;

Ele se refere ao supremo valor da vida, àquilo para o que e pelo que vive, àquilo sem o que a vida, para ele, seria sem objetivo e sem sentido. Ele se refere àquilo que controla tudo o que compõe a sua vida. Talvez a melhor maneira de o expressar seja dizendo o seguinte: o que Paulo está realmente dizendo sobre si próprio é que ele ama Cristo. Ele O ama e, como sempre se pode dizer do amor, seu amor a Cristo domina e controla sua vida. È para isso que eu vivo, diz ele, nisso consiste a natureza e o objetivo disso tudo. [...] Ele se refere como eu passo a maior parte do meu tempo quando tenho lazer, o que leio e no que penso.[8]

Paulo nos fala de um viver cujo trabalho produz fruto para a glória de Deus, que pensa no bem que isso pode resultar para o próximo (Fp 1.22, 24).

E a morte? O que ganhamos ou lucramos com ela? O termo “partir”, do gregoanalysai, possui um rico significado:

[...] significa ficar livre de um fardo. Esse era um termo usado pelos agricultores em referência ao ato de remover o jugo dos bois. [...] Partir e estar com Cristo significa colocar de lado todos os fardos, pois o seu trabalho na terra estaria consumado.[9] [...] significa levantar acampamento. A ideia central aqui é a de desatar as cordas da tenda, remover as estacas e prosseguir a marcha. A morte é colocar-se em marcha. Cada dia dessa marcha é uma jornada que nos aproxima mais do nosso lar. Até que enfim se levantará pela última vez o acampamento neste mundo e se transferirá para a residência permanente na glória.[10]  [...] significa desatar as amarras do barco, levantar a âncora e lançar-se ao mar. Morrer é empreender essa viagem para o porto eterno e para Deus.[11]

Em relação à vida terrena o sentimento de Paulo era de incerteza. Já quanto a sua condição em relação à eternidade era de grande convicção. Sobre isto Shedd escreve:

Quando Paulo olhou seu futuro incerto, ele desconhecia o número de dias ou meses de sua prisão, não sabia que sentença lhe dariam quando seu caso fosse julgado, mas sabia uma coisa: conhecia a Cristo. E porque conhecia a Cristo, para ele faria muito pouca diferença o ser solto ou decapitado, pois qualquer dos dois caminhos iria manter sua “hipótese central”, que era a comunhão contínua com seu amado Senhor. Continuaria uma pessoa bem realizada e alegre, acontecesse o que acontecesse, pois é assim que se deve encarar o futuro. Quando a pessoa tem sua confiança total no deus onipotente, nada de ruim pode sobrevir, porque os eventos e as circunstâncias são controlados por ele. Só haviam duas opções, e qualquer delas que Deus escolhesse para Paulo tinha que ser a melhor.[12]

Quer vivamos, quer morramos, que seja para a glória de Deus!

Paulista-PE, 10/07/2013.

Fonte: Blog do Pr. Altair Germano


[1] Lloyd-Jones, Martyn. A vida de alegria: comentário sobre filipenses. Tradução de Odayr Olivetti. São Paulo: PES, 2008, p. 15.
[2] CABRAL, Elienai. Filipenses: a humildade de Cristo como exemplo para a Igreja. Rio de Janeiro: CPAD, 2013, p. 35.
[3] SHEDD, Russel P; MULHOLLAND. Epístolas da prisão: uma análise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemon. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 109.
[4] Ibid., p. 107.
[5] GERMANO, Altair. Uma liderança com saúde. São Paulo: Arte Editorial, 2013, p. 65-67
[6] Ibid., p. 55-59.
[7] Lloyd-Jones, Martin. Ibid., p. 99-105.
[8] Lloyd-Jones, Martin. Ibid., p. 103.
[9] WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 6 2006, p. 89, apud LOPES, Hernandes Dias. Filipenses: a alegria triunfante no meio das provas. São Paulo: Hagnos, 2007, p. 94.
[10] BARCLAY, William. Filipenses, Colosenses, I y II Tesalonicenses. Vol. 11, 1973, p. 35, apud LOPES, Hernandes Dias. Ibid.
[11] Ibid.
[12] SHEDD, Russel P; MULHOLLAND. Ibid., p. 115.

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