sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A suprema aspiração do crente - EBD / CPAD - Subsídio Teológico



“Não que já a tenha alcançado ou que seja perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam e avançando para as que estão diante de mim,   prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.    Pelo que todos quantos já somos perfeitos sintamos isto mesmo; e, se sentis alguma coisa doutra maneira, também Deus vo-lo revelará. Mas, naquilo a que já chegamos, andemos segundo a mesma regra e sintamos o mesmo.   Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam.” (Fp 3.12-17)

A figura de uma corrida, a metáfora do atleta, se faz presente mais uma vez no texto paulino:
O quadro é o do corredor que sabe como uma olhadela para trás pode distraí-lo e, assim, exerce o máximo esforço em prosseguir na corrida. Paulo tem o mesmo pensamento duplo em 1 Co 9:26, onde (diz ele) o atleta deve envidar todo esforço em correr, mas “não sem meta”. O prêmio que o aguarda, na linha de chegada, lá adiante, é a perspectiva de receber o louvor de seu Senhor. O versículo seguinte elabora mais completamente o incentivo que o anima a prosseguir “para o alvo, para o prêmio”.[1]

O alvo significa a fita diante da meta, no final da pista, à qual o atleta dirige o seu olhar.[2]

Champlin sugere os seguintes prêmios que Paulo procurava conquistar:

1.    Vs. 11: Trata-se do tipo de vida mediado pela ressurreição.
2.    Vs. 12: É o tipo de vida que envolve a alma na busca e conquista da “perfeição”. Isso alude às perfeições morais e metafísicas envolvidas na salvação, tanto no presente quanto no futuro. O VS. 16 mostra-nos que também está envolvida a “perfeição” presente, isto é, a maturidade espiritual; mas este versículo fala mais especificamente acerca da perfeição da alma, que buscamos na salvação.
3.    Vs. 14: É o “prêmio” da vida eterna, a saber, a salvação, com tudo quanto ela inclui.[3]

Martin inclui como prêmio almejado por Paulo “o completo conhecimento de Cristo, um pouco do qual lhe foi ministrado em sua conversão [...]”.[4]

Em seu comentário sobre Filipenses, Hernandes Dias Lopes cita Warren Wiersbe, que discorre sobre os elementos essenciais para se ganhar a corrida e receber a recompensa (prêmio)[5]. São eles:

A insatisfação (3.12-13a). Na condição de líder, Paulo não deixa de ser um cristão que luta como os demais para alcançar o que Deus preparou para os seus filhos. Uma “insatisfação santa” com a própria condição é o primeiro elemento essencial para avançar na corrida cristã. Pessoalmente, conheço gente que por ter ingressado no ministério pensam que já alcançaram o que tinham de alcançar. Na realidade tais pessoas parecem ter feito do ministério (ou liderança) sua meta final, pois não se comportam como alguém que almeja as bênçãos eternas. O descaso para com a integridade moral, o apego às posições e cargos, a ambição por poder e dinheiro, as brigas e o partidarismo ministerial, as causas judiciais entre obreiros, são alguns exemplos deste comportamento inadequado. Enquanto os falsos mestres presunçosos judaizantes e gnósticos se vangloriavam em algum tipo de “perfeição” moral (os santarrões dos dias atuais), Paulo fugia da presunção espiritual, que sinaliza imaturidade na vida cristã. A maturidade cristã nos conduz a uma constante auto-avaliação, seguida de um contínuo desejo e esforço para melhorarmos.

A dedicação (3.13b). É preciso manter os olhos fixos na meta, sem desviar dos objetivos. Há muitas coisas que surgem durante a corrida tentando desviar o nosso olhar do grande alvo. Mantenha o foco.
A direção (3.13c). Ao correr em uma competição (já participei de algumas na condição de ex-atleta de remo), não se olha para trás, com o intento de calcular a distância já percorrida, nem se deve preocupar-se com os concorrentes (que se multiplicam no meio cristão). A distração com o passado pode comprometer o futuro. É preciso libertar-se do saudosismo, ou de mágoas do passado, se quisermos de fato avançar e alcançarmos o prêmio (Gn 19.26; Lc 9.62; 1 Tm 1.12-17).
A determinação (3.14). Determinação fala de esforço intenso. Um atleta vencedor não é resultado apenas da participação em palestras ou conhecimento teórico. Em meu livro Uma liderança com Saúde, no capítulo intitulado “A sedução e o preço das conquistas na liderança”, escrevo que na condição de remador:

O meu dia começava às 4h00 da manhã. Acordávamos e após a higiene pessoal já partíamos para o alongamento, o aquecimento e o treino físico que incluía corridas de curta, média e longas distâncias, subidas em escadarias de morros e arquibancadas de estádios, natação, circuito de pesos, dentre outras. A duração era em média de uma a duas horas. Após o treino físico iniciava-se a parte técnica. De acordo com a categoria, nós remadores pegávamos o barco e conduzíamos até ao leito do rio Capibaribe, para lá remarmos por cerca de mais uma a duas horas. Isso acontecia diariamente. Após o treino lavávamos carinhosamente e caprichosamente os remos e o barco. No início da preparação física e técnica eram comuns as dores musculares e os grandes calos no centro das mãos, provocados pelos exercícios e pelos cabos dos remos. Mas isso não nos incomodava, pois havia paixão, gostávamos de estar ali, tínhamos prazer no esporte. Dormíamos muito cedo, no máximo às 22h00, e isso de domingo a domingo. Abríamos mão de qualquer tipo de atividade que comprometesse o nosso preparo físico, que pudesse causar uma contusão, ou provocar algum tipo de indisposição. Depois de cerca de um ano nesta rotina, quando faltavam dois meses para estrearmos na categoria “Quatro com Timoneiro”, o treinador nos
chamou a parte e perguntou se de fato desejávamos ser campeões. Nossa resposta foi sim. Para nossa surpresa, com o coração aberto e cheio de zelo, o nosso treinador disse que isso somente aconteceria se nos dispuséssemos a treinar mais um ano, pois não estávamos prontos. A princípio a sua fala nos causou certo desconforto e desânimo, mas por fim concordamos. Mais um ano de treinos intensivos viria pela frente. Quando estávamos no meio do ano, em razão de nossa dedicação e disposição, já chamávamos a atenção da equipe e dos concorrentes pelo nível de excelência física e técnica que alcançamos. Outros remadores e barcos paravam para observar a combinação de elegância e vigor em cada remada. Enfim, chegou o grande dia da competição. Três clubes disputavam o campeonato: O Clube Náutico Capibaribe, o Sport Club Recife e o Clube Barroso. Barcos a postos foi dada a partida. A largada foi tensa, e nos primeiros 500 metros os barcos estavam praticamente emparelhados. Foi a partir desta marca que os nossos minutos, horas, dias, semanas, meses e anos de treinamento intenso, regados por paixão, disciplina e determinação fizeram a diferença. Os remadores dos barcos competidores começaram a dar sinais de cansaço, e consequentemente a qualidade de suas remadas diminuiu. Quanto a nossa equipe, mantínhamos o ritmo, a pegada, a elegância, enquanto contemplávamos os adversários ficando mais distanciados à nossa popa. Cruzamos a linha de chegada em primeiro lugar, e dois anos de dedicação se manifestaram com o levantar das mãos com os punhos cerrados, com o bater nas águas da Bacia do Pina, em risos, lágrimas e gritos eufóricos. Seguiram-se abraços, parabenizações, e o momento da premiação, que foi marcado por muitos aplausos e intensos elogios. É nessa hora que muitos olham para o atleta e desejam estar em seu lugar. Mas, será que os tais estariam dispostos a pagar o mesmo preço que eles pagaram para estarem ali?[6]

Lopes, citando Werner de Boor, escreve:

Muito embora a salvação seja gratuita, somente aqueles que se esforçam entram no Reino. [...] o prêmio é pura dádiva. Nenhum de nós se coloca por si mesmo em movimento rumo a Deus. Ninguém confecciona pessoalmente o prêmio da vitória. Contudo, não obteremos esse prêmio da vitória se permanecermos sentados à beira do estádio e refletirmos sobre ele, nem se fizermos declarações corretas acerca dele. Tampouco somos levados até ele em um automóvel da graça. Temos de “caçá-lo” com o empenho de todas as nossas forças.[7]

A disciplina (3.15-16). A disposição não nos basta para vencermos a corrida; precisamos obedecer às regras. Escrevendo em sua Segunda Epístola a Timóteo (2.5), Paulo nos lembra que “o atleta não é coroado se não lutar (competir) segundo as normas”. Não existem “jeitinhos” para se receber o prêmio. Muitos atletas em competições olímpicas (dentre outras) já tiveram que devolver a medalha conquistada, por ser constato posteriormente em exames antidoping o uso de substâncias proibidas. No caso do prêmio celestial, o indivíduo nem consegue recebê-lo, pois é reprovado antes disso.

Lloyd-Jones, ao concluir seu comentário sobre o presente texto, declara:

Bem, aí está a grande e vital doutrina ensinada pelo apóstolo neste ponto. É uma descrição do cristão. Os cristãos recebem a certeza da salvação; eles vêem claramente o que se espera que eles sejam e sabem que não são; mas anelam ser, e aplicam toda a sua energia para chegar à meta. Deus nos livre de uma falsa doutrina sobre perfeição, e implante em nós e impulsione dentro de nós este princípio que se evidencia tão claramente em Paulo, esta compreensão do padrão supremo, este anelo por ele e esta determinação de não poupar esforços para alcançá-lo.[8]

Na corrida cristã, não basta simplesmente começar bem, é preciso chegar bem. É preciso ganhar o prêmio.

* A segunda impressão do livro Pedagogia Transformadora, de nossa autoria, já se encontra disponível para vendas online e nas lojas da CPAD.




[1] MARTIN, Ralph P. Filipenses: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1985, p. 153.
[2] Ibid.
[3] CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 51, v. 5.
[4] Ibid., p. 152.
[5] LOPES, Hernandes Dias. Filipenses: a alegria triunfante no meio das provas. São Paulo: hagnos, 2007, p.204-210.
[6] GERMANO, Altair. Uma Liderança com saúde. São Paulo: Arte Editorial, 2013, p. 33-35.
[7] LOPES, Hernandes Dias. Ibid., p. 209.
[8] LLOYD-JONES, Martim. A vida de paz: comentário sobre Filipenses. Tradução de Odayr Olivetti. São Paulo: 2008, p. 101.

Fonte: Blog da UBE

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