quinta-feira, 3 de julho de 2014

Fé que se mostra pelas obras - Tiago - EBD / CPAD - Subsídio Teológico



INTRODUÇÃO

A Epístola de Tiago, que será estudada ao longo deste trimestre, nos trará orientações a respeito do agir do cristão no mundo. Na aula de hoje introduziremos esse livro, considerando sua autoria, local, data e destinatário. Em seguida, destacaremos os propósitos da Epístola de Tiago, e ao final, apontaremos algumas instruções para os cristãos da contemporaneidade com base nesse texto bíblico.

1. EPÍSTOLA DE TIAGO

A Epístola de Tiago nem sempre foi compreendida pela igreja cristã, nem mesmo por alguns reformadores, que consideravam essa uma recaída no legalismo judaico. O próprio Lutero a criticava, argumentando que se tratava de “uma verdadeira epístola de palha, pois não é caracteristicamente evangélica”. Mas essa foi uma interpretação equivocada do sábio reformador, que não compreendeu o propósito do seu autor.

Tiago, o autor da Epístola, é um dos quatro mencionados no Novo Testamento, sendo este o filho de José e Maria, portanto meio-irmão do Senhor (Mt. 1.18,20). Ele se tornou apóstolo de Cristo após testemunhar a ressurreição de Jesus, sendo considerado uma das colunas da igreja, além de ser líder influente em Jerusalém (At. 15.13-21; Gl. 1.19).

O local da composição da Epístola é incerto, ainda que alguns estudiosos especulem que teria sido escrita em Jerusalém. A data provável deste escrito é entre 45 a 49 d. C., antes do concílio em Jerusalém (At. 15), sendo destinada aos cristãos judeus que residiam em comunidades de gentios fora da Palestina. Nas palavras do próprio Tiago, essa Epístola é destinada “às doze tribos que andam dispersas” (Tg. 1.1). A expressão “doze tribos”, nesse versículo é uma figuração dos israelitas daquela época, considerando que as doze tribos originais haviam sido desfeitas.

Existem várias possibilidades de divisões dessa Epístola, apresentamos uma delas: Destino e saudação (Tg. 1.1); Provações e a maturidade cristã (Tg. 1.2-18); Cristianismo autêntico e suas obras (Tg. 1.19-2.26); Dissensões dentro da igreja (Tg. 3.1-4.12); Implicações de uma cosmovisão cristã (Tg. 4.13-5.11); e Exortações finais (Tg. 5.12-20).

O versículo-chave da Epístola de Tiago certamente se encontra em Tg. 2.18: “Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras, mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras”. Mas há outros destaques, dentre eles: 1) a prática da Palavra de Deus (Tg. 1.22); 2) a religião pura e verdadeira (Tg. 1.27); e 3) o valor da oração do justo (Tg. 5.16).

2. O PROPÓSITO DA EPÍSTOLA DE TIAGO

A relação entre fé e obras é o ponto central da Epístola de Tiago, e está em consonância com o argumento do autor da Epístola aos Hebreus, defendendo que sem fé é impossível agradar a Deus (Hb. 11.6), e de Paulo, ao justificar que tudo que não é da fé é pecado (Rm. 14.23). Isso quer dizer que a fé exige ação, principalmente para aqueles que se deparam com provações (Tg. 1.2-4).

Tiago revela, ao orientar a igreja, que a fidelidade faz diferença, por isso, ao enfrentarmos oposição, devemos nos considerar bem-aventurados (Tg. 1.12). Isso porque ao contrário do que é propagado na atualidade, as provas são instrumentos utilizados por Deus para o crescimento do cristão.

Tiago adverte os irmãos da igreja para não se esquecerem da Palavra de Deus, especialmente diante das situações adversas (Tg. 1.22-25). Tiago também adverte a igreja em relação à distinção que se fazia entre as pessoas, principalmente no que tange à posição social (Tg. 2.1-6).

A esse respeito a igreja pode influenciar a sociedade, na medida em que as pessoas se respeitam mutuamente, e se aceitam como irmãos e irmãs em Cristo, independentemente da condição socioeconômica. Deus exige fé, mas essa não pode ser atestada sem as obras, como testemunho para as pessoas. O objetivo de Tiago é justamente apontar a demonstração da fé, que acontece somente pelas obras. Evidentemente ninguém é salvo pelas obras, a salvação é pela graça, por meio da fé, não das obras, para que ninguém se glorie (Ef. 2.8,9). Por outro lado, como assume o Paulo no mesmo texto, fomos criados para as boas obras, para que andássemos nelas (Ef. 2.10). As pessoas que nos observam, e o próprio Deus, verão as nossas obras, como demonstração de fidelidade (Tg. 2.14-18). Jesus, antes mesmo de Tiago, destacou que os crentes são sal da terra e luz do mundo (Mt. 5.13) e que nos tornamos conhecidos através do frutos (Mt. 7.20).

O controle da língua é fundamental na demonstração da fé do cristão, por isso os crentes devem ter cuidado, pois se “essa é inflamada pelo inferno” (Tg. 3.8). Ao invés de usar a língua para difamar, ou mesmo para murmurar, devemos orar a Deus, mas é preciso orar com sabedoria, não apenas para satisfazer nossos desejos egoístas (Tg. 4.2).

Para o autor, os crentes não podem pactuar com o mundo, tornar-se amigo do mundo, significa ser inimigo de Deus (Tg. 4.4), antes devemos confiar no Senhor, que está no comando de todas as coisas (Tg. 4.13-15). Por fim, Tiago destaca o valor da igreja em comunidade, inicialmente na confissão dos pecados, e na oração uns pelos outros (Tg. 5.16).

3. INSTRUÇÕES DA EPÍSTOLA DE TIAGO

A partir das instruções de Tiago aos crentes primitivos, concluímos que essa epístola, ao contrário do que afirmou Lutero, não é “uma epístola de palha”. Tiago continua atual, e traz uma alerta para os crentes deste século.

Em sua Epístola nos conclama a um cristianismo autêntico, fundamentado não apenas na doutrina, mas também voltado para a prática. A igreja cristã precisa avaliar-se continuamente a partir dessa mensagem. A doutrina bíblica da salvação demanda um ato de fé, uma convicção no sacrifício de Cristo na cruz do calvário (Ef. 2.8,9), mas também atitudes de fidelidade, que são demonstradas através de atitudes, condizentes com o evangelho de Jesus Cristo.

Tiago não entra em contradição com Paulo, muito pelo contrário, seus posicionamentos se complementam. Em Rm. 3.28; 5.21; e Gl. 3.24 o Apóstolo dos gentios avalia a condição do homem pecador diante de Deus, mostrando a inutilidade da religião para a justificação. Em Tg. 2.24, o meio-irmão do Senhor ressalta a necessidade das obras, não apenas como demonstração perante os homens da salvação, mas também para nossa maturidade, na medida em que revelamos nossa fidelidade a Deus.

Nesses tempos em que a igreja se volta para um cristianismo distanciado de um viver autenticamente cristão, faz-se necessário repensarmos, a partir da Palavra de Deus, quem de fato somos, e como devemos agir no mundo. A natureza da religiosidade precisa ser percebida à luz da orientação bíblica, caso contrário, nos tornaremos um mero ajuntamento de pessoas, debaixo de interesses meramente humanos.

Os membros da igreja, como comunidade de fé, devem se relacionar uns com os outros, demonstrando atenção, especialmente os mais necessitados. Um cristianismo individualista, no qual as pessoas não se envolvem umas com as outras, nada tem a ver com aquele expresso por Jesus, ao edificar a Sua igreja. A igreja que é ekklesia sabe que está no mundo, que deve ser luz nas trevas, e apontar para Aquele que nos chamou para segui-Lo.

CONCLUSÃO

A Epístola de Tiago, escrita ainda no Século I, nos trás uma mensagem atual, que chama todo cristão à responsabilidade. A modernidade nos legou uma “zona de conforto”, até mesmo o cristianismo foi solapado por esse “modus vivendi”. Esse livro bíblico, que será estudado ao longo deste trimestre, abalará as estruturas de nossa sociedade acomodada. Oramos para Deus, que fale pela Palavra e o Espírito, a fim de que sejamos moldados à imagem de Cristo, e vivermos um cristianismo autêntico, em que nossas obras sejam condizentes com a fé que expressamos.

BIBLIOGRAFIA
- DAVIDS, P. H. Tiago. São Paulo: Vida, 1997.
- MOO, D. J. Tiago: introdução e comentário. São Paulo: 1999.

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