sábado, 28 de novembro de 2015

BENÇÃO E MALDIÇÃO NA FAMILIA DE NOÉ - Lição 9 - EBD/ CPAD - Subsídio Teológico


Em Gênesis já vimos várias vezes como a natureza do ser homem sempre o leva de mal a pior. Do início do livro até o final, percebemos grandes mudanças provocadas pelo pecado (Do Paraíso para a Queda, seguido por homicídio na família, até ao Dilúvio, quando a raça humana se mostra rebelde, corrupta, violenta e totalmente corrompida. Mas a graça de Deus sempre invade nossa história com notas de esperança e novos começos.

Depois do Dilúvio, Deus deu uma nova chance para a raça humana, representada na família de Noé. Noé é o novo Adão. Em Gn 7 e 8 testemunhamos a destruição de toda vida na face da terra, com a exceção de Noé e sua família. Deus acabou com tudo e todos, para limpar sua terra do mal. Noé achou graça, obedeceu a Deus, e foi usado grandemente por Deus

A história de Noé e de sua família não se encerra com sua saída da Arca. Houve um fato triste que trouxe julgamento a um de seus descendentes, e a futura divisão das terras do novo mundo.

Noé se tornou então o segundo patriarca (pai) da humanidade através dos seus três filhos: Sem, Cam (Cão) e Jafé que repovoaram a Terra. 

SUBSÍDIO BIBLIOLÓGICO

Noé era um lavrador da terra, como fora Caim. Cuidar de plantas se tornou sua grande paixão e entre elas estava a videira. Esta é a primeira vez que a produção de vinho é aludida na Bíblia, e é significativo que esteja ligada a uma situação de desgraça.

Noé pode ter sido inocente, não conhecendo o efeito que a fermentação causa no suco de uva nem o efeito que o vinho fermentado exerce no cérebro humano. Isto não impediu que a vergonha entrasse no círculo familiar. Perdendo os sentidos, Noé tirou a roupa e se deitou nu.

Benção e maldição

A atitude desrespeitosa de Cão para com o seu pai, Noé, resultou em maldição e a atitude reverente de Sem e Jafé para com o pai resultou em bênçãos.

Muito se tem falado sobre esse assunto, desde os argumentos infundados dos que afirmam que a África está submetida à maldição lançada por Noé ao neto Canaã, não sendo em nada original, repetindo apenas uma velha ladainha de 1455 que respaldou com a promulgação da Bula Romanus Pontifex, a escravização e a exploração da África pelo Reino de Portugal, chegando ao ápice no séc. 19 entre os escravagistas do sul dos EUA, quando passa a ser ensinado como fato que Deus lançou uma maldição sobre os africanos.

O teólogo e historiador Walter Passos, afirma que "a pretensa maldição de Cão trouxe lucros tanto para a igreja católica como para a protestante. Grande exemplo é a ordem dos jesuítas que enriqueceu com os "amaldiçoados". Dentro do protestantismo serviu para manutenção da escravidão. Hoje, é usada ainda para preterir os descendentes de africanos".

A maldição de Cão é usada diretamente para alimentar a intolerância e motivos dentro do cristianismo para introjetar o desamor e a baixa estima aos negros (ainda que de forma velada) em algumas igrejas evangélicas.

A BENÇÃO

A geração que nos antecedeu tinha o hábito de pedir a bênção dos pais. Antes de ir dormir, ao sair para a rua ou quando ia viajar. Essa era uma prática comum e abençoada. 

Aquela geração também tinha problemas, lutava contra vícios e violência, mas nem comparar com a situação atual. Ao pedir a bênção dos pais, o filho demonstrava respeito por eles e fé em Deus.

A Bíblia fala sobre a importância que tem a bênção dos pais sobre os filhos, especialmente se ela está vinculada à bênção de Deus. Em Gênesis, no capítulo 9, à partir do verso 24, lemos assim: “E despertou Noé do seu vinho e soube o que seu filho menor lhe fizera. E disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos. E disse: Bendito seja o Senhor, Deus de Sem; e seja-lhe Canaã por servo. Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por servo.”

Noé amaldiçoou o seu filho menor Canaã, declarando-o servo dos servos, que pode ser traduzido como escravo de escravos. Sem, Noé relacionou com Deus; Jafé foi abençoado com prosperidade.

O que terá acontecido aos três filhos de Noé? A palavra que ele liberou sobre os filhos se cumpriu? Isso é o que veremos a seguir

BÊNÇÃO DE NOÉ: O PROGRAMA PARA AS RAÇAS NA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

A bênção de Noé concernente a Jafé e Sem e sua maldição sobre Canaã, o filho de Cão, é o acontecimento importante que se segue no processo da salvação. Mas enquanto a aliança de Deus com Noé era o fundamento da história sucessiva da natureza, do mundo e da salvação, a bênção e maldição de Noé é seu projeto fundamental profético, seu programa para as raças na história.

A maldição de CAM

Cam ou Cão, (em hebraico: o er o ; e grego: Χαμ Kh ) é um dos filhos de Noé, segundo a narrativa bíblica. De acordo com a Tabela das Nações no livro de Gênesis, tratava-se do filho mais novo de Noé e foi o pai de Cuxe, Mizraim, Pute e Canaã.

A história de Cão é relatada em Gênesis 9:20-27

Gênesis 9:20... “Começou Noé a ser lavrador, e plantou uma vinha: Bebendo do vinho, embriagou-se e achou-se nu dentro da sua tenda.

Cão, pai de Canaã, viu a nudez de seu pai, e contou a seus dois irmãos que estavam fora. Então tomaram Sem e Jafé uma capa, puseram-na sobre os seus ombros e, andando virados para trás, cobriram a nudez de seu pai; tiveram virados os seus rostos, e não viram a nudez de seu pai.

Despertando Noé do seu vinho, soube o que seu filho mais moço lhe fizera. E disse: Maldito seja Canaã; Servo dos servos será de seus irmãos. E acrescentou: Bendito seja Jeová, o Deus de Sem; E seja-lhes Canaã por servo. Dilate Deus a Jafé, E habite Jafé nas tendas de Sem; E seja-lhes Canaã por servo. Segundo uma certa linha de interpretação, ao proferir tais palavras, Noé estaria profetizando que um dos descendentes de Sem, Abraão, iria herdar a terra dos cananeus.

Interpretações e implicações sócio-políticas.

A maldição de Cam foi usada por alguns membros de religiões abraâmicas para justificar o racismo e a escravidão eterna de negros africanos, quem acreditavam ser descendentes de Cam.

78 Defensores da escravidão nos Estados Unidos invocaram consistentemente este relato da Bíblia ao longo do século 19 em resposta ao crescimento do movimento abolicionista.

No Brasil, a maldição de Cão serviu de justificativa para escravizar os índios, tendo missionário da Ordem de São Pedro João de Sousa Ferreira afirmado "Não há lei divina nem humana que proíba a possessão de escravos" e continuou "(e os índios brasileiros) são da descendência da maldição de Ham" .

Os Portugueses igualmente consideravam os negros descendentes de Cão. A cor era o sinal da maldição e justificava a escravidão.

A maldição sobre Canaã

Das 63 ocorrências do termo ‘ār r’ (maldição) no Antigo Testamento, o verbo ocorre por 12 vezes como antônimo do verbo abençoar (bār k) e um desses casos é o versículo 25 do texto em apreço.

Seguindo os conceitos anteriores (Gn 3.14, 17; 4.11), o sentido primário é de que Canaã e sua descendência estariam banidos, cercados de obstáculos e sem forças para resistirem seus inimigos tornando-se escravos dos escravos (ebe ‘ bā î ).

Devemos notar, contudo, que embora Cão tivesse outros filhos além de Canaã (Cuxe, Mizraim e Pute (Gn 10.6), a maldição foi especificamente para Canaã e seus descendentes, isto é, os cananeus da Palestina, e não Cuxe e Pute, que provavelmente se tornaram os ancestrais dos etíopes e dos povos negros da África. Por fim, não se trata de uma maldição dirigida aos negros africanos como costuma afirmar certos intérpretes.

Os canaanitas foram totalmente extintos segundo a posição de vários biblistas e historiadores. O pecado de Cam é descrito no versículo 22 como “viu ele nudez de seu pai” mas será que apenas ver o pai nu e contar aos irmãos era suficiente para amaldiçoar? 

O próprio texto insinua algo muito mais do que isso, pois ao acordar, Noé soube o que seu filho mais novo havia feito, mais não informa como ele ficou sabendo. No verso 22, Cam “descobre a nudez” do pai.

As expressões hebraicas não são fáceis de traduzir e o texto aqui refere-se a atos sexuais ilícitos, explicitados no Código Legal de Israel (Levítico 18; Levítico 20; Deuteronômio 27.20-23).

Assim que, uma das interpretações do motivo causador da maldição sobre a descendência de Cão teria sido um possível ato de homossexualidade praticado durante a embriaguez do seu pai. Entretanto essa interpretação, mesmo que seguida por muitos estudiosos, não tem confirmação explicita no texto bíblico.

Um detalhe interessante está em Gênesis 14.18, quando Abraão, descendente de Sete, encontra um cananita nativo chamado Melquisedeque, que era homem justo e “Sacerdote do Deus Altíssimo”, e que abençoou Abraão.

Deus coloca em ação um grande plano de redenção para todas as nações, para resgatá-las dessa e de qualquer outra maldição de pecado e julgamento.

Ele chama a Abrão para todas as nações e faz uma aliança com ele e promete: “Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem ; em ti serão benditas todas as famílias terra” (Gênesis 12). “Todas as famílias da terra” incluindo os cananeus.

AS BÊNÇÃOS DE SEM E JAFÉ

Os Semitas Como Intermediários Espirituais da Redenção

Com Sem foi diferente. A bênção mais gloriosa foi dada a ele. “Bendito seja Jeová, o Deus e Se ” (Gn 9.26).

Esta forma de louvor, que expressa a bênção, que na verdade não é como “bênção”, mas como louvor ao Deus que abençoa, tem sua base (conforme Lutero observou: “proper excellentem benedictionem”) na promessa elevada e ilimitada dada a Sem.

Jeová é o Deus de Sem, isto é, a raça Semita é a condutora dessa revelação especial. Para Jafé Deus é Elohim, o Criador, Sustentador e Governador universal (Gn 9.27).

Mas para Sem Ele é Jeová, o Deus da aliança e o Redentor. Desse modo Sem se torna o vaso e canal da Sua graça especial redentora, e daí em diante a promessa da salvação espiritual é concentrada em seus descendentes.

Esta salvação se torna completa em Cristo, pois Ele, o Redentor, como filho de Davi descende de Sem por meio de Abraão (Lc 3.36). Assim como Ele mesmo disse: “A salvação vem dos Judeus” (Jo 4.22).

Em Cristo a bênção de Sem se tornou o Evangelho para o mundo. Os descendentes de Sem Duas coisas curiosas aparecem no versículo 21: Sem é descrito como pai de todos os filhos de Héber, seu bisneto (v.25): os israelitas, descendentes de Héber, por isso chamados hebreus na antigüidade (Gênesis 14:13, Filipenses 3:5), eram todos também filhos de Sem, ou semitas - ainda hoje têm esse nome! Nenhum outro povo é chamado semita: nem mesmo os árabes, que também são da descendência de Abraão, mas ilegítimos, sendo filhos não da sua esposa, mas da sua escrava egípcia.

Em que consiste a bênção de Jafé?

Deus dê alargamento ao que alarga” (Gn 9.27), ou “Deus alargue ao máximo o alargamento”. O jogo com as palavras “Ele torna amplo” (Heb. Jafé) e o nome Jafé devem ser reproduzidos na tradução. Jafé foi o pai dos Medos (Heb. Madai, Gn 10.2) e dos Gregos, que no hebraico é Javan.

A bênção sobre Jafé

A bênção do Senhor sobre Jafé está subordinada a de Sem: “h bite ele s te s e Se ”, o que equivale a dizer que Jafé e Sem teriam relações diplomáticas amigáveis. Todavia, ’Elohîm engrandeceria a Jafé de tal forma que Canaã lhe seria servo (v.27). Além de Canaã receber a sua sentença imprecatória, esta foi reforçada em cada bênção pronunciada a seus irmãos. Os cananitas seriam escravos tanto dos semitas (linhagem judaica) quanto dos jafetitas (povos indo-europeus).

CONCLUSÃO

Nossa luta contra o pecado é diário, momento após momento. As vitórias de ontem serão lembradas para todo sempre, mas não garantem nada na luta de hoje. Não podemos cansar de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos (Gal 6.9). Noé havia andado com Deus durante mais de 600 anos quando caiu! Havia salvado o mundo, e caiu. Não importa quantos anos você é crente, quantos anos você ensinou EBD ou trabalhou na igreja ou é líder espiritual. Não importa se você é pastor da igreja ou se trabalha no berçário. Todos nós temos a natureza de Adão em nós. Todos nós temos que lutar, na força do Senhor, contra o pecado que tenazmente nos assedia (Hb 12.1,2). Para alguns, o “pecado de estimação” que está sempre com eles são vícios, para outros, pensamentos promíscuos; para outros, ira. Para alguns, auto-suficiência e orgulho.

As promessas e as benção de Deus devem ser uma constante em nossa vida. Tudo depende única e exclusivamente de uma decisão pessoal de cada um de nós. Servir e submeter a nossa vontade a Deus e crer que Ele é fiel.///

Pr. Dr. Adaylton Conceição de Almeida (Th.B.;Th.M.Th.D.;D.Hu.)

(O Pr. Dr. Adaylton de Almeida Conceição foi Missionário no Amazonas e por mais de 20 anos exerceu seu ministério na Republica Argentina, é Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia, Escritor, Professor Universitário, Psicanalista e Pós Graduado em Ciências Políticas e em Psicanálise, Doutor em Psicologia e em Humanidade, Diretor da Faculdade Teológica Manancial e Professor do Seminário Teológico Kerigma).

Facebook: Adayl Manancial

BIBLIOGRAFIA

  • Adaylton de Almeida Conceição – Dispensações (Períodos Bíblicos)
  • Délcio Meireles - Benção de Noé – O programa para as raças.
  • Esdras Costa Bentho – A maldição de Noé
  • Enéias Ramos Corrêa – Benção e maldição
  • Jairo Carioca - A Maldição de Noé sobre Canaã, o que aconteceu?
  • Walter Passos - A maldição de Cam 

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