terça-feira, 13 de abril de 2021

MANIFESTO SOBRE HERMENÊUTICA PENTECOSTAL



Órgãos da CGADB estiveram reunidos nos dias 1 e 5 de abril tratando sobre o assunto e elaboraram o manifesto


MANIFESTO SOBRE HERMENÊUTICA PENTECOSTAL

Considerando as crescentes discussões acerca da construção de uma Hermenêutica Pentecostal em solo brasileiro, o Conselho de Doutrina e a Comissão de Apologética da Convenção Geral dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Brasil (CGADB), atendendo solicitação da Mesa Diretora, vem, em linguagem simples (sem rigor acadêmico), apresentar o seguinte manifesto:

1. DA EXPRESSÃO “HERMENÊUTICA PENTECOSTAL”

Hermenêutica é a ciência e a arte de interpretar textos. É aplicada nas diversas áreas do saber humano. Na área da teologia temos, em um sentido geral, a Hermenêutica Bíblica, cujo objetivo é fixar princípios e normas a serem empregados na interpretação dos livros da Bíblia. Não é una nem mesmo no Cristianismo. As diferentes hermenêuticas ou técnicas de interpretação produzem teologias distintas. Assim como a existência da Teologia Católica e da Teologia Reformada pressupõem a existência de correspondentes métodos de interpretação, a Teologia Pentecostal possui sua própria hermenêutica, a Hermenêutica Pentecostal, que é fundamentada na Palavra de Deus.

Conquanto possa parecer uma discussão nova, há registros de estudos de Hermenêutica Pentecostal desde 1917 na Assembleia de Deus norte-americana, citados na obra "Teologia Sistemática – Uma Perspectiva Pentecostal" (CPAD, 1996. pp.25,653). Ou seja, a expressão Hermenêutica Pentecostal não é novidade alguma no Movimento Pentecostal Clássico.

Por aqui, embora sempre seguissem os mesmos princípios hermenêuticos, nossos pais não se preocuparam com a formatação de métodos científicos para embasar sua interpretação das passagens bíblicas acerca do batismo no Espírito Santo, da evidência inicial e da separabilidade em relação à conversão. O dinamismo da obra pentecostal em solo brasileiro produziu uma cultura essencialmente bíblica, com extraordinários resultados. É certo, contudo, que com o passar dos anos e o crescimento do Movimento Pentecostal, tornou-se necessária não somente a sistematização da teologia, mas uma preparação instrumental para exposição e defesa dos fundamentos da fé pentecostal, campo no qual a hermenêutica se situa com destaque.

Não temos dúvida, portanto, que a Teologia Pentecostal tem e precisa ter sua própria hermenêutica, visto que a leitura que fazemos dos textos sagrados, por mais que perpassem uma base primária comum com as igrejas históricas, difere em muito em pontos fundamentais, especialmente no campo da Pneumatologia.

2. O QUE É HERMENÊUTICA PENTECOSTAL

Nós pentecostais cremos que a revelação canônica se encerrou com os apóstolos e a formação do Novo Testamento (1Co 15.8), por isso nossa fonte de autoridade é unicamente a Bíblia. Tal assertiva, porém, não significa pressupor que Deus não continua falando e se relacionando ativamente com o ser humano. 

Para as Assembleias de Deus e o Movimento Pentecostal como um todo, a suficiência das Escrituras não anula a continuidade das manifestações divinas e as experiências com o Espírito Santo; ou seja, o fechamento do Cânon Sagrado não significa que Deus abandonou suas criaturas e o seu povo, com quem Ele continua a se comunicar inclusive por meio dos dons espirituais (At 2.14-21). Por isso, em nossa hermenêutica, a fonte do conteúdo doutrinário é a própria Palavra de Deus, em sua inteireza. Disso não decorre que a experiência pentecostal deve ser desprezada, pois sentir é uma capacidade inata aprovisionada pelo próprio Criador no homem; e as percepções exercem um papel crucial na assimilação do conhecimento. Embora a experiência pentecostal faça parte do processo, é sempre submetida às Escrituras; tudo sob a dependência e a iluminação do Espírito Santo. Sem nenhuma presunção, nossa hermenêutica é a Hermenêutica do Espírito Santo.

Enquanto técnica, a Hermenêutica Pentecostal serve-se do método histórico-gramatical como base comum em relação à Hermenêutica Reformada, mas não faz o mesmo recorte ou distinção em relação aos textos narrativos – especialmente Lucas e Atos –, subordinando sua interpretação aos textos de Paulo. Cremos que a Escritura interpreta a própria Escritura, mas sem subordinação entre os textos sagrados.

Para nós, pentecostais, as narrativas são didáticas, porque cremos integralmente no que escreveu Paulo a Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino...” (2Tm 3.16-NAA). Se a própria Escritura afirma que toda ela é útil para ensinar, não seríamos nós que faríamos separação entre textos didáticos e não didáticos, supondo que alguns sejam registros de fatos sem mensagem normativa, eficaz e prática para nossos dias. Ademais, temos a autenticação feita pelo próprio Senhor Jesus, assim como fizera com os apóstolos, confirmando a Palavra com sinais (Mc 16.20). De igual forma, Deus nos tem dado a graça de viver os mesmos sinais vividos pelos crentes primitivos, os quais se somam como confirmação da validade e eficácia plena das promessas do Espírito para os nossos dias. Esse é o lugar da experiência na Hermenêutica Pentecostal.

Em outras palavras, para a Hermenêutica Pentecostal o texto de Atos possui valor doutrinário; embasa a doutrina pneumatológica e subsidia sobejamente o entendimento de que o dom do Espírito Santo – o batismo no Espírito Santo com a evidência do falar em línguas; experiência claramente distinta da conversão (At 2.38; 19.1-6) – é atual e plenamente aplicável à vida do cristão em todos os tempos. Ademais, esta foi a mensagem de Pedro no Dia de Pentecostes: “Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos e a todos os que estão longe: a tantos quantos Deus, nosso Senhor, chamar” (At 2.39). Isso não é uma mera narrativa, mas uma mensagem doutrinal, interpretando a profecia de Joel (2.14-39).

3. O QUE NÃO É HERMENÊUTICA PENTECOSTAL

Tendo em vista nossa definição do que é Hermenêutica Pentecostal, é preciso estabelecer com firmeza com o que não comungam os pentecostais clássicos em termos de técnicas de interpretação. Isso é imperativo especialmente diante de métodos hermenêuticos pós-modernos, focados no leitor e não no autor e no texto, e que emprestam à experiência um lugar que a ela não cabe no processo interpretativo. Isso não é Hermenêutica Pentecostal.

De igual forma, a Hermenêutica Pentecostal sadia não é uma negação do método histórico-gramatical. Por outro lado, não é um apego rigoroso e absoluto a esse método, cujo emprego não conduziu a fé reformada à compreensão e crença na atualidade da obra do Espírito Santo, tal qual prometida por Jesus e vivenciada pelos apóstolos e pelas igrejas do Novo Testamento. 

Conquanto se valha de ferramentas da erudição bíblica, a Hermenêutica Pentecostal não flerta com quaisquer das aplicações do método histórico-crítico ou da atual crítica literária e histórica que negam a plena inspiração das Escrituras e a literalidade dos milagres. 

Em síntese: 1) não abraçamos de forma absoluta o método histórico-gramatical (que cria um cânon dentro do cânon); 2) não nos rendemos aos métodos histórico-crítico e pós-modernos, notadamente nos aspectos que buscam fragmentar as Escrituras e negar os milagres; 3) refutamos a teologia narrativa em sua pretensão de desconstrução do texto e de seu sentido, que devem sempre guardar coesão com o contexto histórico e gramatical; 4) não empregamos métodos de interpretação subjetivista, focados no leitor, em detrimento do autor e do texto; 5) consideramos que as experiências devem sempre e necessariamente serem submetidas ao crivo da inspirada e infalível Palavra de Deus; e 6) servimo-nos de ferramentas da erudição bíblica, conscientes de que métodos e técnicas, por melhores que sejam, são humanos e, portanto, imperfeitos e incompletos, pelo que buscamos acima de tudo a iluminação do Espírito Santo (Ef 1.18, 2Pe 1.20).

É o manifesto.

Rio de Janeiro, 05 de abril de 2021.

CONSELHO DE DOUTRINA:
Pr. Paulo Roberto Freire da Costa – Presidente; Pr. Antônio Xavier S. Vale – Vice-presidente; Pr. Emanuel Barbosa Martins – Secretário; Pr. Neemias Pereira da Rocha, Pr. José Antônio da Silva Sobrinho, Pr. Ely Batista, Pr. Isaac Pedro da Silva e Pr. José Almir Angewicz (membros).

COMISSÃO DE APOLOGÉTICA:
Pr Esequias Soares da Silva – Presidente; Pr. Elinaldo Renovato de Lima – Vice-Presidente; Pr. Silas Rosalino de Queiroz – Secretário; Pr. André Custódio Moreira Junior – Relator; Pr. Erivaldo de Jesus Pinheiro, Pr. Sisaque da Silva Valadares, Pr. José Gonçalves da Costa Gomes, Pr. Eliezer Miranda e Pr. Carlos Eduardo Neres Lourenço (membros).

CONVIDADOS:
Pr. Elienai Cabral, primeiro secretário da Mesa Diretora da CGADB e consultor teológico e doutrinário da CPAD; Pr. Douglas Roberto de Almeida Baptista, presidente do Conselho de Educação Religiosa da CGADB; Pr. Alexandre Claudino Coelho (Gerente de Publicações da CPAD) e Pr. Silas Daniel da Silva (Editor-chefe de Jornalismo da CPAD).

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