quinta-feira, 3 de maio de 2018

Disparando contra evangélicos, Pr. Ricardo Gondim critica Bolsonaro: “Político de quinta”

O pastor Ricardo Gondim assumiu há anos uma militância de esquerda nas redes sociais e em artigos publicados em seu site, e agora, às vésperas da campanha eleitoral que culminará com um novo presidente, o veterano líder evangélico fez críticas agudas ao movimento conservador e o principal ícone que surge como representante desse grupo da sociedade: Jair Bolsonaro.
As críticas de militantes de esquerda aos representantes do conservadorismo, agrupados sob o espectro da "direita", sempre vêm carregadas de rótulos como "retrocesso", "fascismo", "opressão", etc., enquanto a resposta de quem discorda aponta a corrupção, como principal característica da esquerda, acompanhada de desvalorização da família, apologia ao aborto e à "liberdade" sexual.
Gondim, no entanto, foge aos rótulos comuns na construção de sua crítica, embora repita os argumentos. O artigo A caricatura evangélica traz, novamente, a exposição da visão extremamente aguda do pastor da Igreja Betesda ao segmento do qual ele diz ter se divorciado há anos.
A construção do argumento de Ricardo Gondim se vale da reciclagem de críticas ao presidente norte-americano Donald Trump, afim de comparar Bolsonaro com os escândalos do passado do bilionário que ascendeu à Casa Branca.
"Com o avanço da direita religiosa dos Estados Unidos, a era Trump expõe os exageros do movimento evangélico. Hipocrisia, venalidade e vassalagem tornam, a cada dia, a caricatura mais evidente. Teólogos, sociólogos e filósofos de todas as tendências se perguntam: o quê os crentes conservadores viram em Donald Trump? Como embarcaram com malas e cuias no Titanic de um maluco bilionário, dono de cassino? A pergunta feita lá tem implicações diretas aqui, em terras tupiniquins. Bolsonaro, mesmo mais parecido com um Bateau Mouche que um Titanic, pode produzir um naufrágio épico para o Brasil", afirma Gondim.
As críticas a Trump, em muitos casos, são justas. Assim como a Bolsonaro. Ambos são verborrágicos, afeitos ao confronto e causam dúvida em quem os analisa friamente. Porém, a análise fria também requer a exposição das conquistas do presidente dos EUA em quase 1 ano e meio de mandato, como recuperação da economia e emprego, corte de impostos e novos acordos comerciais favoráveis à nação com quem tem responsabilidade, assim como o combate à perseguição religiosa a cristãos no mundo, corte de verbas às clínicas que incentivam e praticam o aborto, entre outras iniciativas de cunho conservador.
Se Bolsonaro repetirá, caso eleito, o mesmo desempenho de Trump, não se sabe. Mas, segundo Gondim, a ascensão de alguém como o capitão do Exército é culpa das igrejas, e não dos desmandos da esquerda.
"Tomo conhecimento de uma forte mobilização de igrejas evangélicas históricas para comporem a tripulação da nau fascista capitaneada por Bolsonaro – com comitês eleitorais e tudo. Eles querem um crente na presidência a qualquer custo. Insisto: por aqui, a tragédia de um Trump meia boca seria tenebrosa; e o custo de vidas, incalculável. – mais que do Titanic e do Bateau Mouche somados", alarmiza o pastor.
"Os crentes acreditam que o mundo está em guerra contra o reino de Deus. Existem sim inúmeras passagens bíblicas, principalmente nos textos atribuídos a Paulo, que descrevem uma guerra entre forças divinas e mundanas. Algumas epístolas se valem, inclusive, da linguagem militar. Os crentes partem daí e interpretam a palavra 'mundo' como a realidade toda. Mundo para eles é a vida (Nem entro nas minúcias linguísticas que distinguem mundo como pessoas, mundo como planeta e mundo como sistema injusto). Na teologia do movimento, mundo é a erudição, o saber acadêmico, as artes, o lazer, a ciência, a medicina, o prazer sexual. Tudo que não é 'espiritual'", afirma Gondim.
O tom adotado pelo pastor na crítica aos irmãos de denominações que não seguem a visão relativista e liberal que ele adotou para seu ministério – como por exemplo, a pormenorização da homossexualidade como pecado – expõe muito do que Gondim não enfatiza com suas palavras, levantando a dúvida se há preconceito contra quem pensa diferente.
"Tratam como herói quem se coloca como soldado no combate ao 'mundo'. A pessoa declara guerra ao mundo e passa a ser amiga de Deus. A teologia evangélica ainda faz 'cruzada'. O propósito dessa guerra santa é reconquistar os 'valores judaico-cristãos'; tirar das mãos de pessoas mundanas e devolver à igreja. E isso é tão absolutamente importante para a mentalidade evangélica que alguns se dispõe a fazer aliança com o diabo para salvar o mundo do mundo", argumenta.

Desdém

A postura ácida de Gondim contra os evangélicos avança pelo campo teológico, e o pastor novamente ironiza, dessa vez com quem acredita que a Salvação é alcançada a partir da confissão: "Os evangélicos acreditam que todas as pessoas que ainda 'não aceitaram Jesus como único e suficiente salvador' já estão condenadas ao inferno. O lago de fogo e de enxofre, em processo de aquecimento, receberá todos os que ainda não declararam: 'Eu aceito Jesus'. Basta falar. A salvação fica garantida, automaticamente, a quem confessar com os lábios: 'Jesus é o Senhor'".
"Essa teologia preconiza que o pecado de Adão condenou toda a humanidade. Todas as pessoas, antes de nascerem, são alvos da ira de Deus. O sacrifício de Jesus, todavia, as salvou. Só quem aceitar o sacrifício vai para o céu. Há inclusive a discussão, com versículos e tudo, se essa salvação é eterna. Alguns insistem: 'uma vez salvo, para sempre salvo'. Exemplo: Trump pode ser um crápula, malvado, mulherengo, vil, frio. Contudo, se em alguma ocasião, ou em reunião com pastores, (ele nem frequenta igreja) balbuciou com os lábios a frase, está salvo para sempre. Nem que tente conseguiria revogar a salvação que recebeu pelos méritos de Jesus. Sendo assim, o mundo se divide entre salvos e perdidos", ironiza.
A partir do contexto no argumento, Gondim dispara acusações a fiéis e políticos: "É por isso que Bolsonaro fez questão de mostrar ao mundo evangélico que está salvo, já que se batizou no rio Jordão – o que não é pouca coisa. Mesmo que não mostre nenhum fruto de arrependimento, está salvo. Deus usa esses 'vasos de barro'. Trump e Bolsonaro, 'vasos' (mesmo trincados), salvarão mais pessoas".
Embora negue versar com o teísmo aberto (pensamento filosófico que nega a onipresença, onisciência e onipotência de Deus), Gondim explora as fronteiras dessa linha de raciocínio em seu penúltimo parágrafo:
"A teologia evangélica, mesmo arminiana, mesmo progressista, mesmo de esquerda, crê que Deus preestabeleceu a história. Ele tem tudo sob seu mais rigoroso controle. Portanto, Javé gerencia o desenrolar do tempo nos mínimos detalhes. Deus conduzirá a história a um fim glorioso. Assim como usou Ciro da Pérsia lá atrás para fazer bem a Israel, Deus usa quem escolhe", escreve Gondim, sem regular sarcasmo.
"Trump, Bolsonaro, Pinochet, Stalin, Hitler, são guiados, mesmo que não saibam, por uma vontade soberana. Deus põe cabresto em quem desejar, e usa quem assim decidir. Ele defende os interesses do seu reino e não tem satisfações a dar a ninguém. Secularização, ameaça de comunistas, gays, anarquistas, roqueiros, baladeiros, serão enfrentadas pelo Senhor e por pessoas que ele instrumentalizar. Ouvi diversas vezes: 'Deus usou um jumento, por que não pode levantar um Bolsonaro para cumprir a sua vontade?' O argumento é esdrúxulo. Ora, também as caricaturas. Porém, no exagero da tolice se evidencia o que a gente não queria, ou não conseguia, perceber", acrescenta.
Ao final, o pastor que admite não crer no poder de Deus, mas nas iniciativas humanas, diz que "o custo será um futuro pavoroso" se Bolsonaro chegar à presidência. "Ou não é ameaçador ver cristão aplaudindo político de quinta categoria?", encerra.
Fonte: Gospel+

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