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terça-feira, 30 de março de 2021

Primeira grande pandemia da história aconteceu nos tempos bíblicos, há 5 mil anos



“Pragas, pestes e epidemias sempre fizeram parte da nossa história”, afirmou Luiz Sayão sobre as pesquisas científicas e arqueológicas.


Uma descoberta de cientistas franceses, suecos e dinamarqueses sugere que a “primeira grande pandemia” tenha ocorrido há 5 mil anos e que a cepa ancestral da bactéria “Yersinia Pestis” tenha causado um enorme número de mortes.

“Nossa pesquisa revelou o que acreditamos ter sido a primeira grande pandemia da história humana”, afirmou o biólogo Nicolás Rascovan em entrevista à BBC News, em dezembro de 2018. Rascovan é o autor principal do estudo que foi publicado na revista científica Cell. Segundo ele, a pandemia pode ter desempenhado um papel em importantes eventos históricos da época. A sugestão é que tenha ocorrido por volta de 5.700 a 5.100 anos atrás.

Conforme esses estudiosos, a época coincide com o surgimento dos primeiros assentamentos humanos considerados de grande porte, ou seja, aglomerações com até 20 mil pessoas que viviam em contato próximo com animais e, provavelmente, sob condições sanitárias precárias.

Sobre o vírus “Yersinia Pestis”

Toda doença vinda de algum animal é conhecida por “peste”. A peste que foi denominada por “Yersinia Pestis” também já foi conhecida por “Pasteurella Pestis”, nomes que lembram os autores originais da descoberta — Alexandre Yersin (1863-1943) e Louis Pasteur 1822-1895. 


Louis Pasteur, um dos mais famosos químicos franceses, autor da pasteurização — processo utilizado para destruir microorganismos que podem estragar alimentos que consumimos. (Foto: Reprodução/Google)

De acordo com a história, Yersin foi um dos mais brilhantes discípulos de Pasteur e foi ele quem isolou a bactéria que acabou sendo batizada como Yersinia Pestis, em homenagem ao cientista. 

Descoberto em 1894, Yersinia é um vírus que pode infectar o ser humano por meio de pulgas que vivem em animais de pequeno porte, como os ratos. O vírus assume as seguintes formas: bubônica, septicêmica e pulmonar.

Alexander Yersin
O cientista suíço Alexandre Yersin (1863-1943), que descobriu o bacilo causador da peste e tem sua história contada no livro Peste e Cólera, de Patrick Deville. (Foto: Editora 34/Divulgação)

A bubônica afeta os gânglios linfáticos, presentes em todo o corpo humano e leva esse nome por provocar bubões ou bubos, isto é, inchaços infecciosos no sistema linfático, sobretudo nas regiões das axilas, virilha e pescoço.

É a mais famosa e ficou conhecida na Idade Média como a “peste negra”, ocasionando os surtos mais mortais da história da humanidade. Foi chamada de peste “negra” por causa das manchas escuras que causava na pele das pessoas.

A septicêmica ocorre quando a infecção se propaga pelo fluxo sanguíneo e pode levar à morte através da infecção do sistema circulatório. 

A pulmonar pode ocorrer por consequência das duas anteriores [bubônica ou septicêmica], quando afeta a respiração e compromete os pulmões. Basicamente, a diferença entre as três é o local da infecção — gânglios, sangue ou pulmões.

Estudiosos sempre apontam que essas pestes tiveram sua origem na China e imediações, tendo sido transmitidas para a Europa através das rotas comerciais. 

Pandemia e arqueologia

Os pesquisadores analisaram também bancos de dados com informações genéticas obtidas de fósseis humanos do período. E chegaram a uma mulher, que teria vivido há mais de 5 mil anos onde hoje é a Suécia. Ela morreu com 20 anos de idade, em decorrência de uma cepa ancestral da peste. Tudo indica, portanto, que esta seja a origem genética da Yersinia Pestis.

"O tipo de análise que fizemos nos permite voltar no tempo e observar como evoluiu esse patógeno que teve efeito tão grande na humanidade", comenta outro autor da pesquisa, o cientista Simon Rasmussen.

"Essa cepa nos permitiu aprender coisas interessantes sobre o início da história da peste", afirmou Rascovan. "Como foi encontrada num lugar e tempo que não se encaixava em nenhum modelo anterior do surgimento e propagação da praga, isso nos fez repensar tudo e construir um novo modelo evolutivo”, disse.

Ao descobrir que essa linhagem era a mais antiga, os cientistas deduziram que a peste provavelmente surgiu nos primeiros grandes assentamentos humanos europeus, de onde provavelmente se espalhou rapidamente por toda a Eurásia.

Eles acreditam que, a partir de agora, arqueólogos que estudam remanescentes humanos [através de vestígios ósseos arqueológicos] do período Neolítico poderão ter as atenções também voltadas para indícios da bactéria da peste. Além, é claro, de considerar o impacto destrutivo das doenças em análises das sociedades de então.

Como a humanidade primitiva conseguiu vencer a grande pandemia?

Essa é a pergunta que os cientistas se fazem quando levam em conta que a peste poderia extinguir a humanidade. "A peste é causada por uma das bactérias mais letais que já existiram para os humanos", lembrou Rasmussen.

O pesquisador acredita que a bactéria tenha evoluído de algo praticamente inofensivo para mortal, já que existe uma evolução, segundo ele, citando os casos de varíola, malária, ebola e zika. “Trata-se de um processo muito dinâmico, que continua acontecendo. Isso é muito interessante para ser estudado”, observou.

Rasmussen acredita que o achado completa o que já se sabia sobre o declínio das populações europeias no período. "Os dados se encaixam. Se a peste evoluiu nos grandes assentamentos, então, quando as pessoas começaram a morrer, os assentamentos acabaram abandonados e destruídos. Isso é exatamente o que se observa por volta de 5.500 anos atrás”, explicou. 

Para ele, as pessoas começaram a migrar ao longo de todas as rotas de comércio possibilitadas pelo transporte da época, expandindo-se rapidamente em toda a Europa nesse período. O que explica o fato de a praga ter chegado ao pequeno assentamento humano na região da Suécia, onde resquícios da bactéria foram observados na tal mulher morta aos 20 anos de idade.

Opinião teológica

De acordo com o teólogo e hebraísta Luiz Sayão, a Bíblia apresenta as palavras praga, peste ou pestilência e até epidemia em alguns momentos da história do Israel antigo. “Surpreendentemente, há muito mais na Bíblia do que as chamadas pragas do Egito”, disse ao Guiame. 

O pastor explica que, normalmente, a epidemia aplicava-se como forma de “juízo divino” para um povo que o desobedecia. É possível observar através das narrativas bíblicas os colapsos das civilizações e os impérios fragilizados por conta, muitas vezes, de epidemias. 

“Quando observamos o que aconteceu com os filisteus, por exemplo, quando estavam com a Arca da Aliança, podemos imaginar que foi uma mini peste bubônica”, disse ao se referir ao episódio descrito no livro de 1 Samuel.

“Mas, quando a arca chegou, a mão do Senhor castigou aquela cidade, e trouxe-lhe grande pânico. Ele afligiu o povo da cidade, jovens e velhos, com uma epidemia de tumores.” (1 Samuel 5.9). Vale lembrar que depois disso, os filisteus ofereceram uma “oferta de culpa”, produzindo imagens de ouro em forma de tumores e ratos (1 Samuel 6.4). 

Para muitas doenças manifestadas na pele das pessoas, a Bíblia usa termos como tumores ou lepra. O linguista esclarece que o palavreado de termos médicos era muito mais simplificado. O termo “lepra”, por exemplo, tradução da palavra original “Tsarat”, significa somente “doença de pele contagiosa”. Ele aponta para o cuidado de compreender a realidade do mundo antigo. Logo, é possível que doenças que vimos em nossos dias, possam ter assolado as nações no passado bíblico.

A ciência mais recente é que nomeia com grande variedade as doenças. “Tsarat podia ser lepra, vitiligo, psoríase, câncer de pele, entre outras doenças. No hebraico, não havia uma palavra específica para lepra”, explicou.

O professor Luiz Sayão explica que as epidemias sempre fizeram parte da história da humanidade. (Foto: Divulgação)

Sayão enfatiza também que é comum encontrar na Bíblia um cenário de pragas e pestes decorrentes das guerras. “Exércitos foram paralisados por epidemias”, citou. O teólogo se refere, principalmente, às guerras nos tempos de Davi [cerca de 3 mil anos atrás]. Mas e quanto à pandemia que os cientistas sugerem ter acontecido há 5 mil anos? Há como associar a algum tempo bíblico?

“Sobre datação, não há a mínima possibilidade disso, já que a partir do livro de Gênesis, as tentativas pouco fundamentadas de vários estudiosos estão equivocadas”, comentou e explicou o motivo. “As genealogias bíblicas são incompletas intencionalmente, o calendário utilizado pode ser distinto do nosso. Não sabemos, por exemplo, que tipo de calendário teria sido usado para contar os anos de vida dos descendentes de Adão”, especificou. 

Mas, independente de associar ou não a um tempo bíblico a tal epidemia que ocorreu há 5 mil anos, conforme os cientistas sugerem, é essencial compreender que pragas, pestes e epidemias sempre fizeram parte da história da humanidade. Mais importante que a associação, no entanto, é a oportunidade de aprendizado que temos à nossa disposição, conforme o professor Luiz Sayão enfatiza.

“O cenário que nos desafia pode nos ajudar a aprender e a crescer. Não podemos sair desse momento do jeito que a gente entrou. Nesses momentos de pandemia, devemos ser solidários. Nas histórias de epidemias dos tempos antigos, muitos doentes eram expulsos de casa, mas os seguidores de Jesus pegavam os doentes na rua para cuidar deles, mesmo sabendo que podiam ser contaminados. Isso mostrava o valor que eles davam à vida humana. Que sejamos, nesse tempo, também um caminho de bênção para as pessoas”, concluiu.\

Fonte: Guiame

sábado, 13 de março de 2021

Como a Igreja lidou com epidemias nos séculos passados? Veja exemplos e lições


O Portal Guiame traz um relato histórico emocionante de como os cristãos do passado enfrentaram as pragas com compaixão, resiliência e fé.

O ano de 2020 trouxe a maior crise epidêmica das últimas décadas: a pandemia da Covid-19. O impacto foi tanto que alterou todas as áreas da vida, estabelecendo um “novo normal”. Se adaptar a esse novo contexto sombrio foi um desafio para todo mundo, inclusive para a Igreja. 

Congregações em todo o mundo tiveram que se habituar aos decretos de prevenção dos governos, investir na programação e cultos online, e dar respostas bíblicas às questões mais difíceis que angustiam o ser humano, como “por que Deus permite o sofrimento?” e “por que o justo sofre?”.

Quando crises batem à porta, temos o costume de olhar para trás em busca de respostas na história das gerações passadas, que também vivenciaram angústias como as nossas. Os cristãos sempre fizeram isto; procuramos nas vidas dos personagens bíblicos o consolo, força e conselho espiritual para nossos próprios desafios.

Em tempo de pandemia, seria sábio o Corpo de Cristo relembrar como a Igreja lidou com outras pandemias nos séculos passados, a fim de tirar lições que nos possam servir hoje.

A igreja protestante na linha de frente das pandemias

Quando olhamos para a história da Igreja durante surtos epidêmicos a vemos atuando na linha de frente, combatendo as pragas através da ajuda social e amparo espiritual.

“As igrejas, de modo geral, têm um histórico de solidariedade e de enfrentamento muito forte das pandemias. As igrejas evangélicas, sejam elas protestantes ou pentecostais, sempre tiveram uma postura muito séria em relação às crises epidêmicas”, analisa o professor de Teologia da Universidade Mackenzie, Gerson Moraes, em entrevista ao Guiame.

O professor afirma que os relatos históricos revelam como muitos pastores e ministros atuaram de forma heroica nas pandemias – muitos até mesmo se sacrificando para cumprir sua missão.

“Durante a Reforma Protestante, vamos encontrar o próprio Martinho Lutero enfrentando uma epidemia de peste negra na Europa. Ele deixa registrado em diversos momentos de sua obra como ele lida com a situação de maneira pastoral; enterra pessoas, cuida de crianças que perderam os pais”, diz Gerson e conclui: “Esse é o perfil histórico de um sacerdote protestante que lidou com esta questão”.

Encontramos relatos de cristãos lidando com crises epidêmicas desde a Igreja Primitiva até a Reforma Protestante; igrejas abrindo suas portas para servir de hospitais, irmãos cuidando de enfermos na própria casa e pastores doando suas vidas como verdadeiros mártires. Acompanhe a linha do tempo e entenda como foi a atuação da Igreja durante as principais pandemias da história.


Imagem ilustrativa de igreja servindo como hospital.

(Imagem: Calvin Institute of Christian Worship)

Peste Antonina (166-189 d.C.) – Roma

A primeira grande epidemia enfrentada pela Igreja Primitiva foi a Peste Antonina, de 166 a 189 d.C., levada a Roma pelas tropas que retornavam da campanha contra os persas. A doença, provavelmente varíola, dizimou cerca de 10% da população. Em 189 d.C., a taxa de mortalidade por dia chegou a 2 mil pessoas em Roma, de acordo com o historiador romano Dio Cassio.

Segundo Glenn Sunshine, professor de História na Universidade Estadual do Centro de Connecticut, as pessoas da época já entendiam que a praga era contagiosa e, por isso, expulsavam seus doentes de casa para morrerem na rua e os ricos fugiam para suas propriedades rurais no interior.

O professor disse em artigo para a Mission Frontiers, que os cristãos permaneceram em Roma para cuidar dos vizinhos doentes, mesmo sabendo que não tinham meios de se proteger contra a doença. Os cuidados básicos de enfermagem oferecidos pela Igreja salvaram muitas vidas e contribuíram para o rápido crescimento do cristianismo.

Peste de Cipriano (249-262 d.C.) – Roma


Cristãos orando do lado de fora de uma igreja durante a Gripe Espanhola em São Francisco (EUA), em 1918.

(Foto: Hulton Archive/Getty images)

No século seguinte, o mesmo fenômeno ocorreu. A Peste de Cipriano – chamada assim em homenagem a Cipriano, o bispo de Cartago que registrou a epidemia – atingiu o Império Romano drasticamente. No pico da epidemia, a praga matou 5 mil pessoas por dia em Roma. E dois terços da população de Alexandria, a segunda maior cidade do Império Romano, morreu vítima da doença.

A praga – que pode ter sido um novo surto de varíola ou uma febre hemorrágica como o ebola, segundo os especialistas – foi descrita como terrível pelo Bispo Cipriano: “Os intestinos são sacudidos por um vômito contínuo; os olhos estão em chamas com o sangue infectado; em alguns casos, os pés ou algumas partes dos membros são arrancados pelo contágio da putrefação doentia”.

Novamente os cristãos, de maneira corajosa, cuidavam dos doentes e moribundos enquanto cidades inteiras eram abandonadas na Itália. “No início da doença, [os italianos] empurraram os sofredores e fugiram de seus entes queridos, jogando-os nas estradas antes que morressem e tratando os cadáveres não enterrados como sujeira”, relatou Cipriano. 

Assim como no século passado durante a Peste Antonina, o cristianismo teve um crescimento exponencial. O sociólogo religioso Rodney Stark calcula que a população cristã em 251 d.C. era formada por cerca de 1,2 milhão no Império Romano e em 300 d.C. já eram cerca de 6 milhões de crentes, segundo informa Glen Scrivener em artigo para o The Gospel Coalition.

Rodney Stark avalia que ao cuidar dos não crentes infectados, a Igreja criou novas redes sociais, fazendo com que o Evangelho se propagasse rapidamente e convertendo muitos pagãos ao Evangelho. O sociólogo conclui que as pragas foram um importante fator para o crescimento do cristianismo no Império Romano, provando mais uma vez que o Senhor tem o seu caminho na tormenta e na tempestade.

Peste Negra (século 14) – Europa e Ásia

Do século 14 em diante, a Peste Negra assombrou a Europa matando milhões de pessoas. Em apenas cinco anos, metade da população do continente morreu vítima da doença. Nesta pandemia, a Igreja atuava na linha de frente, muitas vezes disponibilizando seus templos para servirem de hospitais improvisados, onde ministros auxiliavam como enfermeiros leigos.

Na era da Reforma Protestante, em agosto de 1527, a Peste Negra atingiu a cidade de Wittenberg na Alemanha, morada de Martinho Lutero. Muitos moradores fugiram da cidade para salvar suas vidas, Lutero foi aconselhado a fazer o mesmo, mas ele e a esposa Katharina, que estava grávida na época, decidiram permanecer para cuidar dos infectados.

Em carta de 19 de agosto de 1527, Martinho Lutero escreveu: “Estamos aqui sozinhos com os diáconos, mas Cristo está presente também, para que não estejamos sós, e Ele triunfará em nós sobre aquela velha serpente, assassina e autora do pecado, por mais que ele machuque o calcanhar de Cristo. Ore por nós e adeus”.

Segundo Michael Whiting, diretor de conteúdo da Universidade Dallas Baptist, em artigo para o site da mesma universidade, embora o reformador tivesse se recusado a fugir da praga para cuidar de doentes em sua própria casa, Lutero recomendava aos fiéis que seguissem as medidas de proteção contra a Peste Negra.

Martinho dizia que as orações de fé deveriam ser oferecidas pela misericórdia de Deus junto com as práticas responsáveis de saneamento, medicação e isolamento social para “não ser responsável pela própria morte ou de qualquer outra pessoa”. E, embora ele seguisse os conselhos médicos tanto quanto possível, dizia que “não negligenciaria seus deveres como cristão e pastor”, caso seu  vizinho precisasse dele ou alguém necessitasse de conforto quando estava doente ou morrendo, era seu dever estar presente.

E afirmava contundente: "Se fosse sua hora de morrer, Deus saberia onde encontrá-lo”.  Martinho Lutero e Katharina sobreviveram à epidemia. 


Lutero e sua esposa Katharina cuidaram de enfermos durante a Peste Negra em 1527. 

(Foto: Wikimedia Communs)

Cólera (1817 – até hoje)

Existente desde a Antiguidade, a primeira epidemia global de cólera aconteceu em 1817 e desde lá o vírus sofreu mutações, ocasionando novos ciclos epidêmicos de tempos em tempos.

Em 1854, um surto de cólera assombrou Londres, na época a capital mais rica do mundo com mais de 2 milhões de habitantes. Neste tempo, Charles Spurgeon, com apenas 20 anos, pastoreava a capela da New Park Street.

O príncipe dos pregadores notou que a recepção dos londrinos ao Evangelho estava maior durante a epidemia. Aqueles que antes zombavam de sua pregação, agora estavam buscando esperança em Deus.

“Se existe um momento em que a mente é sensível, é quando a morte está em alta. Lembro-me, quando vim a Londres pela primeira vez, de como as pessoas ouviam o Evangelho com ansiedade, pois a cólera estava se alastrando terrivelmente. Houve pouca zombaria então”, relatou Spurgeon.

O pregador contou a história de um homem moribundo de Londres que antes o criticava: “Aquele homem, em sua vida, costumava zombar de mim. Em linguagem forte, ele sempre me denunciou como hipócrita. No entanto, ele mal foi atingido pelos dardos da morte e buscou minha presença e conselho, sem dúvida sentindo em seu coração que eu era um servo de Deus, embora ele não se importasse em admitir isso com seus lábios”.

Glen Scrivener, evangelista da Igreja da Inglaterra, em artigo para o The Gospel Coalition, avalia que “Spurgeon viu as pragas de seus dias como uma tempestade que levou muitos a buscar refúgio em Cristo, a Rocha”.

Gripe Espanhola – (1918 a 1919)


Igreja Episcopal do Calvário em Pittsburgh servindo como hospital durante a Gripe Espanhola.

(Foto: Reprodução/ Pittsburgh Post-Gazette)

No início do século 20, a Gripe Espanhola se espalhou pelo mundo todo, dizimando cerca de 50 milhões de pessoas. No Brasil, a doença matou o presidente Rodrigues Alves. A pandemia desafiou países, governos, igrejas e profissionais da saúde a lidar com uma crise generalizada em um mundo que ainda se recuperava da destruição da Primeira Guerra Mundial.

Segundo o Dr. Michael Whiting, diretor de Comunicação da Universidade Batista Dallas, nos EUA, os templos das igrejas foram fechados e os cristãos continuaram adorando a Deus em suas casas. Há relatos também de cultos ao ar livre, como registrado na cidade de São Francisco.

Muitas igrejas abriram suas portas para servir como clínicas de saúde improvisadas já que os hospitais estavam lotados. Médicos e enfermeiros cristãos se doavam para cuidar dos infectados, junto com irmãos leigos, muitos deles sacrificando a própria vida, de acordo com Whiting em artigo para o site da mesma universidade.

Conforme registros da Biblioteca Mary Baker Eddy, durante a pandemia da Gripe Espanhola, líderes protestantes, católicos e judeus discutiam sobre os decretos do governo de fechar as igrejas. Alguns acreditavam que o serviço da igreja era mais do que necessário naquele momento, defendendo que os templos ficassem abertos. Cientistas cristãos também participavam da discussão, alguns deles eram favoráveis a obedecer à ordem de contenção.

Também há relatos de igrejas brasileiras na luta contra a Gripe Espanhola, como a Igreja Presbiteriana de Curitiba. Segundo reportagem da Gazeta do Povo, durante a epidemia que atingiu a capital do Paraná entre 1918 e 1919, a igreja recebeu doentes, quando os postos de saúde se encontravam superlotados.

Juarez Marcondes Filho, pastor titular desta igreja e secretário-geral da Igreja Presbiteriana do Brasil, afirmou à Gazeta do Povo que a casa pastoral serviu de ambulatório emergencial. “Provavelmente fiéis médicos ajudaram no acolhimento. Foi algo emergencial, não oficial. Estávamos próximos ao Centro e houve um apelo”, explicou.

Pastores na linha de frente em pandemias: verdadeiros mártires



Na história da Igreja, encontramos relatos de pastores batalhando na linha de frente nas pandemias. Homens corajosos que não tiveram sua vida como preciosa e cumpriram seu pastorado até o fim, muitos sacrificando a própria vida para salvar outras.

Durante a pandemia da Covid-19, a história se repete. Ministros servindo sua igreja, consolando famílias enlutadas, enterrando vítimas do coronavírus, pregando a esperança vindoura para um mundo em desespero. Infelizmente, muitos desses pastores foram promovidos aos Céus por serem infectados da Covid, morrendo como verdadeiros mártires pelo Evangelho.

Gerson Moraes, professor de Teologia da Universidade Mackenzie, lembra ao Guiame que a situação do pastor é muito delicada: “O pastorado significa se alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram. Você tem que estar preparado espiritualmente para fazer um enterro de manhã e um casamento ao final da tarde”.

O professor cita como exemplo o testemunho do pastor presbiteriano Eduardo Lane que atuou na epidemia de Febre Amarela em Campinas, no final dos anos 1880. Na época, a cidade tinha entre 15 mil a 18 mil habitantes e a doença reduziu drasticamente a população para 5 mil moradores.

O pastor Lane, que também era médico, cuidava dos enfermos. E recusando-se a abandonar os pacientes, acabou morrendo vítima de Febre Amarela.

O papel da Igreja em tempos de pandemia


Jornal anunciando o cancelamento de cultos em São Francisco durante a Gripe Espanhola. (Foto: Reprodução/Newspapers.com)

Glenn Shunsine, professor de História na Universidade Estadual do Centro de Connecticut, em artigo para a Mission Frontiers, lembra que a maneira de amar o próximo pode ser diferente para cada período da história, visto que nas pandemias anteriores a ciência não era tão avançada e não haviam hospitais modernos e tantos profissionais qualificados.

“Amar o nosso próximo pode significar coisas diferentes em momentos diferentes”, ponderou Shunsine. “Pode significar distanciamento social para que não corramos o risco de infectá-los como Lutero sugeriu, mas também pode significar ir a áreas onde corremos o risco de contrair a doença. Se formos para essas áreas, devemos tomar todas as precauções possíveis contra a infecção, mas reconhecer com Paulo que ‘para mim, viver é Cristo e morrer é ganho’", afirmou Glenn.

O professor também destacou a importância da oração em tempos de pandemia, junto com o tratamento médico formal. Ele disse que muitos milagres foram registrados nas crises epidêmicas ao longo da história: “Não é incomum encontrar relatos de curas milagrosas em resposta à oração em epidemias em várias partes do mundo nos últimos 200 anos”.

Para o historiador, Deus continua ouvindo nossas orações em favor dos enfermos: “Deus continua a curar em resposta à oração, e seríamos tolos se não nos voltássemos para Ele em todos os nossos esforços para lidar com doenças e seu impacto em vidas e comunidades. Não devemos negligenciar a oração”.

“Se existe um momento em que a mente é sensível, é quando a morte está em alta". — Charles Spurgeon

Shunsine também enfatizou que a Igreja, desde o seu início, considerou a ciência como uma graça de Deus dado aos homens, incentivando que Igreja atual faça o mesmo. “Desde os primeiros séculos, os cristãos reconheceram a medicina como um bom presente de Deus e utilizaram os melhores conhecimentos médicos e tecnologias disponíveis; eles também defenderam seguir os conselhos médicos. Ao lidarmos com a Covid-19 e outras doenças, devemos seguir seu exemplo”, observou Gleen.

Segundo o teólogo Gutierres Fernandes, a Igreja tem um papel social importante em pandemias porque exerce influência sobre a vida de muitas pessoas: “Quando a Igreja segue os protocolos de segurança recomendado pelos agentes de saúde e quando promove campanhas de conscientização, a Igreja está agindo de maneira sábia”, disse ao Guiame.

Já Gerson Moraes, professor de Teologia da Universidade Mackenzie, recorda que a Igreja deve estar na linha de frente durante as calamidades, ajudando o próximo e anunciando as boas novas de salvação.

E Gerson vai além: “A Igreja deve ser a linha de frente não apenas no serviço, mas em relação ao discurso. Ela deve andar de mãos dadas com a ciência, lutando contra o engano. Não ser negacionista, não ser obscurantista, não se vender para políticos de ocasião. E manter sua mensagem eterna e eficaz, que não deve mudar ou ser vendida em hipótese nenhuma”.

Fonte: Guiame

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