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terça-feira, 28 de março de 2017

MPF investiga venda de horários para igrejas nas emissoras de TV

Cultos e missas já tomam mais tempo nas grandes redes do que telejornais


A forte presença dos programas de igrejas evangélicas nas emissoras de televisão abertas do país chamou a atenção do Ministério Público Federal (MPF), que decidiu apurar possíveis irregularidades. As investigações, que acontecem desde 2014 no Rio e em São Paulo se baseiam em duas hipóteses: a subconcessão, algo proibido por lei, e o desrespeito ao limite para a propaganda, que seria de 25% da grade.
A segunda opção é levada em consideração por que é assim que a maioria das organizações religiosas pagam aos canais. Para o MPF se trataria de uma negociação publicitária.
Um estudo da Agência Nacional do Cinema (Ancine), indica que cultos, missas e pregações já tomam mais tempo nas grandes redes do que telejornais. O caso mais conhecido é da rede CNT, onde quase 90% da programação foi vendida para a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).
O Ministério Público de São Paulo já iniciou uma ação civil pública contra a emissora e a Igreja. No Rio de Janeiro, além da CNT, são analisadas as situações de Record, Bandeirantes, RedeTV e Gazeta.
Segundo o procurador da República Pedro Machado, que comanda o processo em São Paulo, essa prática da igreja configuraria uma “transferência indireta” da concessão. “É o desvirtuamento de um serviço público concedido pela União. E dá para equiparar essa transferência a um espaço publicitário, porque a emissora é remunerada por isso”, explica.
O procurador da República Sérgio Suiama, à frente da investigação no Rio, acrescenta que existe uma desigualdade no uso do espaço de uma concessão pública. “Na praça, qualquer um pode pregar, mas na TV, que também é um espaço público, só quem paga pode fazer a pregação. Só as igrejas mais poderosas e com mais dinheiro podem financiar isso. Ou autoriza todo mundo a ocupar o espaço, ou proíbe todo mundo”, defende.
A Universal não é a única sendo investigada. Assembleia de Deus, Igreja Mundial do Poder de Deus e outras denominações menores, além da Igreja Católica, também usam diferentes horários para a transmissão de conteúdo religioso.
Porém, esse tema ainda divide opiniões. O Ministério das Comunicações manifestou, nos inquérito que correm no Rio, seu entendimento de que não há irregularidades no caso da CNT. As regras para radiodifusão não estabelecem limites para a exibição de programas feitos por terceiros, que seria o caso das igrejas. O tribunal de segunda instância da Justiça Federal de São Paulo, fazendo análise de uma liminar, negou o pedido de suspensão dos programas exibidos pela CNT.
O inquérito traz declarações das emissoras negando irregularidades e que respeitam os limites determinados para a exibição de publicidade.
Tempo na TV cresceu 55%
O estudo da Ancine indica que o tempo das igrejas na TV cresceu 55% desde 2012. Em 2015, na TV aberta, de cada cem minutos de programação, 21 mostrava padres e pastores. Ao mesmo tempo, telejornais ocuparam apenas 13 de cada cem minutos de transmissão.
Atualmente a RedeTV!, quinta maior rede do país, tem no conteúdo religioso o principal segmento de programação, ocupando 43,4% da grade. A única emissora que não exibe nenhuma programação religiosa é o SBT.
Com informações de O Globo via Gospel Prime

sexta-feira, 17 de março de 2017

Como os programas evangélicos ganharam as rádios e TVs do Brasil


Por Alexandre de Santi e Maurício Brum


Wallter Robert McAlister era um missionário experiente e versátil. O canadense já havia pregado em países como as Filipinas quando chegou ao Brasil na década de 1950. Tinha livros publicados, deu sermões em templos da Assembleia de Deus e participou das caravanas da Cruzada Nacional de Evangelização, onde promovia “curas divinas” na sombra das tendas de Raymond Boatright e Harold Williams, da Igreja do Evangelho Quadrangular.

Em 1º de agosto de 1960, McAlister tinha o cacife – financeiro e religioso – para ligar o microfone e dar início ao seu programa na Rádio Copacabana, do Rio de Janeiro. A Voz de Nova Vida logo se tornou um sucesso.

O sermão evangélico pelas ondas eletromagnéticas era uma novidade em expansão. O Brasil contava com estações de rádio desde a década de 1920 e tinha a primeira emissora de TV da América do Sul, a Tupi, de 1950. Mas os pastores demoraram a pegar gosto pelos meios eletrônicos. A Assembleia de Deus estreou no rádio somente em 1955 e, um ano depois, a Igreja Evangélica Pentecostal Brasil para Cristo fez o mesmo pelas ondas da Rádio Piratininga, de São Paulo. Na virada dos anos 1960, praticamente todas as grandes denominações evangélicas contavam com algum programa no rádio.

Os ouvintes de McAlister gostavam tanto do programa que passaram a enviar cartas perguntando onde poderiam ouvir o pastor ao vivo. O canadense não batia ponto em nenhuma igreja, mas o retorno da audiência incentivou o missionário a alugar o auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) para dar início aos encontros da Cruzada de Nova Vida em maio de 1961 – onde seguiram por dez anos.

Dessa mistura de rádio, livros e sermão de auditório nasceu a Igreja de Nova Vida, cuja primeira unidade foi inaugurada em 1964, em Bonsucesso, no Rio. 

Alcance universal 
Pelo rádio, a voz de McAlister chegava à residência da família Macedo Bezerra. Um dos filhos, Edir, passou a ouvir os programas do pastor depois de se desiludir com a frieza das missas católicas e com as curas prometidas pelo espiritismo.

Além disso, o adolescente tinha uma irmã que sofria de asma crônica, e ela teria melhorado ao acompanhar o A Voz de Nova Vida. Impressionado, Edir foi até o auditório da ABI ver McAlister em carne e osso. Aos 18 anos, o jovem trabalhava na loteria do Rio, a Loterj, e se dizia "no fundo do poço". "As pessoas cantavam e, de repente, desceu uma coisa sobre a nossa cabeça, nosso corpo, como se estivéssemos sendo jogados debaixo de um chuveiro", contou Edir em uma entrevista para a Folha de S. Paulo. "Pude me ver como realmente era, e eu me via como se estivesse descendo ao inferno. Caí em prantos. Então a mesma presença me apontou Jesus. Foi quando nos convertemos e nos entregamos de corpo, alma e espírito", disse.

 "A teologia da prosperidade prega que o fiel pague o dízimo como uma forma de demonstrar fé espiritual e o desapego ao dinheiro. Mas o objetivo final é ser recompensando em dobro."
Edir entrou com tudo na Igreja de Nova Vida. McAlister era parte de uma nova geração de pastores evangélicos que soube entender uma mudança de comportamento da população. Tão importante quanto falar da Bíblia e empolgar o rebanho, era necessário incorporar o brilho dos novos meios de comunicação e abordar os desejos das pessoas, como dinheiro e amor – não adiantava mais brigar com a realidade. As igrejas relutavam em entrar na TV porque tinham receio de incorrer no pecado da idolatria. Mas os missionários da segunda metade do século 20 viram que o alcance da telinha era um benefício maior do que o risco do pecado. Manoel de Mello, fundador da igreja Brasil para Cristo, foi um dos pioneiros, mas seu programa televisivo durou pouco.

 McAlister, no entanto, se encontrou na TV. Entre 1965 e 1967, pregou na Tupi. Como tantos outros programas televisivos da época, o culto eletrônico havia sido importado dos Estados Unidos, onde os tele-evangelizadores já eram figuras conhecidas desde 1949 – inicialmente com o pioneiro Rex Humbard, o primeiro a ter um programa semanal fixo na TV, depois com outros nomes de peso, como Billy Graham e Jimmy Swaggart.

Edir Macedo passou 12 anos na igreja do canadense. Lá, pegou no pesado: distribuiu panfletos em favelas e alugou cinemas decrépitos para passar filmes de pastores americanos. Conheceu a mulher, Ester, e teve duas filhas. A segunda nasceu com lábio leporino, o que dificultava a alimentação. Ao mesmo tempo, Edir vivia uma frustração na igreja: queria se tornar pastor, mas a equipe de McAlister não apostava no seu nome.

Em 1975, decidiu sair da Nova Vida e fundar a Cruzada do Caminho Eterno ao lado de quatro dissidentes, entre eles Romildo Ribeiro Soares. Todo sábado, Edir saía de casa com uma Bíblia, um teclado musical, um microfone e uma caixa de som, montava a aparelhagem em um coreto do Jardim do Méier, no Rio, e começava a pregar. O rebanho cresceu, e a Cruzada decidiu alugar um cinema e, mais tarde, o galpão de uma antiga funerária no bairro da Abolição. Em julho de 1977, Edir, Soares e outros crentes fundaram a Igreja da Bênção. Dois anos depois, o grupo trocaria o nome do movimento para Igreja Universal do Reino de Deus – mas sua data de fundação está atrelada ao culto de 9 de julho de 1977 até hoje.


Aos poucos, emergiu uma nova tese na Universal e em outras igrejas nascentes: ser rico não é pecado. Pelo contrário, os pastores diziam que era um sinal de saúde espiritual. E, para ganhar dinheiro, bastaria pagar o dízimo à igreja, um ato que seria recompensado por Deus. Um panfleto de McAlister intitulado Como Prosperar ajudou a embasar a nova doutrina, conhecida como Teologia da Prosperidade. “A ideia por trás da teoria é: ao fazer um sacrifício material verdadeiro, com todo o coração, o crente alcançaria um outro nível da evolução espiritual”, explica Steven Engler, professor de estudos religiosos da Universidade Mount Royal, do Canadá. O desapego tem algo de budista, lembra Engler, mas o objetivo final pouco lembra o voto de pobreza dos monges tibetanos: todo fiel espera retorno material, como um investimento bancário. “É paradoxal. Mas esse paradoxo está lá, de certa maneira, nas palavras de Jesus: ‘se conseguir dar com desapego, receberá de volta com juros.’”

O conceito ajudou a consolidar um novo momento do protestantismo. Pastores na TV, dízimo e manifestações intensas de fé, como batismos em locais públicos e alegados milagres de cura, construíram o que teólogos e historiadores chamam hoje de neopentecostalismo. O pacote funcionou para muitos crentes. Ao passar por um novo batismo ou por uma experiência mística, como uma “cura” ou falar em línguas estranhas, muitos disseram que “nasceram de novo” e, a partir daí, buscaram sucesso com apoio da igreja.

A Teologia da Prosperidade levou o movimento a um novo patamar. Entre 1980 e 2010, o percentual de brasileiros que se declaravam evangélicos subiu de 6,6% para 22,2% de acordo com o IBGE. Três anos depois, o Datafolha apontou um novo índice: 28%.

Lado a lado, Edir e Soares foram os líderes desse novo avanço, até que divergências separaram os dois em 1980. A Universal explodiu Brasil afora. Macedo se tornou um pastor apaixonado, que dominou a arte de encantar os crentes com uma mistura de lições da Bíblia e autoajuda. Era uma operação azeitada e, com a arrecadação do dízimo, tinha dinheiro para investir em novas igrejas e grandes eventos. Em 1984, a Igreja comprou a Rádio Copacabana, a mesma que transmitia o programa de McAlister. Dois anos depois, abriu a primeira filial nos EUA. O estádio do Maracanã recebeu 200 mil pessoas em 1987 para um culto na Sexta-Feira Santa. A prosperidade havia chegado à carreira do bispo, como é conhecido.

Mas, desde 1980, Edir não contava mais com a parceria de R. R. Soares, que saiu da Universal e criou a Igreja Internacional da Graça de Deus. O missionário cresceu com presença maciça na TV: ele é figura constante na tela com seu Show da Fé, transmitido pela Band, CNT e RedeTV!. O império da Igreja Internacional da Graça de Deus ainda inclui a emissora Rede Internacional de Televisão (RIT), com 24h de pregação, além de canais por assinatura, editoras, rádios, uma gravadora gospel e até uma produtora de cinema. Com cerca de 2 mil templos em mais de 20 países, a Igreja da Graça, como é conhecida, se destaca pela “expulsão de demônios” e “milagres” operados na telinha.

Mas, na TV, nenhum pastor foi tão ousado quanto Edir Macedo – atrás das câmeras. Em 1989, o bispo comprou a Record e deu início à maior sucessão de polêmicas na história do evangelismo brasileiro.

Publicado originalmente em SUPER via Notícias Cristãs



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