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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Venezuela: Nicolas Maduro se aproxima dos pentecostais em meio à ameaça dos EUA



Venezuela - Avanço pentecostal no país é visto por especialistas como parte da estratégia chavista para ampliar influência religiosa.


Enquanto lideranças cristãs nos Estados Unidos têm chamado atenção para a perseguição religiosa na Nigéria, uma declaração recente de Nicolás Maduro passou praticamente despercebida por esse mesmo grupo. Na semana passada, o presidente venezuelano afirmou que Jesus é "dono e senhor" da Venezuela, além de declarar que o palácio presidencial se tornará "um altar para glorificar a Deus".

A ausência de reação levantou questionamentos sobre o motivo de os evangélicos norte-americanos terem evitado comentar os gestos do líder socialista, que enfrenta crescente pressão internacional.

Crescimento evangélico na Venezuela

Dados recentes mostram que o crescimento das igrejas evangélicas na Venezuela foi muito mais rápido do que no Brasil. Enquanto os evangélicos brasileiros levaram cinco décadas para chegar de 6% a 26,9% da população, o país vizinho saltou de 2,1% em 2010 para 30,9% em pouco mais de uma década.

Analistas destacam que o avanço está diretamente ligado a decisões políticas. Quando Hugo Chávez assumiu o governo, em 1999, líderes pentecostais passaram a receber espaço e benefícios antes exclusivos da Igreja Católica, incluindo influência no ensino religioso das escolas públicas.

O governo adotou uma estratégia clara: aproximar-se das igrejas pentecostais e manter maior distância das denominações historicamente mais críticas, como os batistas.

Movimento aliado ao chavismo cresce e reúne 17 mil igrejas

Desde 2017, o Movimento Cristão Evangélico pela Venezuela (Mocev) atua como elo entre o chavismo e líderes pentecostais. O grupo afirma reunir atualmente 17 mil igrejas, além de cerca de 5 mil pastores associados em todos os estados venezuelanos.

Nos últimos anos, Maduro ampliou incentivos ao segmento. Entre os programas criados, estão:

  • Minha Igreja Bem Equipada, que financia reformas e estrutura para templos;
  • Bônus do Bom Pastor, que transfere recursos diretamente a líderes religiosos;
  • Redução de impostos para organizações religiosas;
  • Instituição do Dia do Pastor, celebrado em 15 de janeiro.

Denominações internacionais, como a brasileira Igreja Universal do Reino de Deus, também apoiam iniciativas ligadas ao governo venezuelano.

Acenos religiosos em meio à tensão com os EUA

Em meio à presença recente de navios americanos próximos ao território venezuelano, Maduro intensificou discursos voltados ao público cristão, inclusive nos Estados Unidos. No início do mês, pediu que "os cristãos dos Estados Unidos" o ajudassem a "carreguemos a bandeira da paz, da harmonia, do perdão e da grande misericórdia do Senhor".

Apesar dos apelos, a relação segue tensa. No sábado (29), Donald Trump alertou companhias aéreas de que o espaço aéreo venezuelano estava fechado, indicando que a escalada diplomática continua.

Laboratório político para a esquerda latino-americana

A Venezuela tem sido observada como um caso de aproximação inédita entre um governo de esquerda e o pentecostalismo, algo que contrasta com o distanciamento tradicional desse segmento em países como Chile, Argentina e Brasil.

Especialistas avaliam que o pentecostalismo, por muito tempo considerado um "primo pobre" no campo religioso, abriu novas possibilidades para movimentos de esquerda que buscam alianças fora das estruturas tradicionais da Igreja Católica — especialmente setores que evitam debates mais acalorados sobre costumes.

O grande ponto de interrogação é o futuro: se outros governos progressistas da região buscarão estratégias semelhantes ou manterão distância das igrejas e da crescente influência evangélica.

Fonte: Folha Gospelbaseado no texto "Maduro entrega Venezuela a Jesus diante de ameaça dos EUA" da coluna de Juliano Spyer, da Folha de S.Paulo.

sábado, 25 de outubro de 2025

Deputados aprovam urgência para projeto que cria a bancada cristã da Câmara




Proposta que une frentes católica e evangélica busca garantir assento e voto no Colégio de Líderes da Câmara dos Deputados


A Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (22) o regime de urgência para o projeto que cria a bancada cristã da Câmara. Trata-se do Projeto de Resolução 71/25, apresentado pelos presidentes das frentes parlamentares evangélica e católica, respectivamente os deputados Gilberto Nascimento (PSD-SP) e Luiz Gastão (PSD-CE).

O pedido de urgência foi aprovado com 398 votos favoráveis e 30 contrários. Os projetos com urgência podem ser votados diretamente no Plenário, sem passar antes pelas comissões da Câmara.

Segundo a proposta, a bancada será constituída por uma coordenação-geral e três vices-coordenadorias. A bancada poderá ter direito a voz e voto nas reuniões de líderes partidários. Além disso, o órgão poderá usar a palavra por 5 minutos semanalmente em Plenário.

O deputado Luiz Gastão defendeu a criação da bancada pelo fato de mais de 80% da população brasileira ser cristã. “A Constituição nos garante liberdade da manifestação da fé de todas as formas”, disse.

A medida é vista como um passo importante para institucionalizar a representação cristã dentro da Câmara e ampliar a presença de pautas conservadoras no centro das decisões políticas.

A iniciativa, que foi articulada por deputados católicos e evangélicos e conta com o apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), une as frentes parlamentares católica e evangélica em uma única estrutura formal, conferindo a ambas status de liderança oficial — algo que hoje apenas as bancadas feminina e negra possuem.

Procuraremos conduzir com muita responsabilidade a questão do mérito antes de trazer a matéria a plenário. A questão será amplamente debatida”, afirmou Motta. Segundo ele, a intenção é construir um consenso em torno da proposta antes da votação definitiva.

Bancada Cristã no Colégio de Líderes

O Colégio de Líderes é um dos espaços mais estratégicos da Câmara. É nele que são definidas as pautas de votação, o tempo de fala dos partidos e o ritmo das deliberações legislativas. Atualmente, apenas líderes partidários, de blocos e das bancadas feminina e negra têm direito a voto nas reuniões.

Com a criação da Bancada Cristã, o novo grupo passará a integrar esse núcleo decisório, tornando-se a terceira bancada temática da Casa. A expectativa é que a bancada reúna mais de 300 deputados de diferentes legendas e que haja um rodízio anual de liderança entre representantes católicos e evangélicos.

Não é bancada de igreja”, diz Ottoni de Paula, um dos principais articuladores da proposta, o deputado Ottoni de Paula (MDB-RJ) explica que a nova bancada surge para dar voz institucional às pautas de valores e costumes, que até então não tinham representação formal no Colégio de Líderes.

A bancada cristã é a união das frentes evangélica e católica, que não tinham poder de representatividade nas decisões da Casa. É lá que movimentos progressistas avançam em pautas que nós resistimos”, afirmou.

Ottoni enfatiza que o grupo não deve ser confundido com uma bancada religiosa. “Não tem nada a ver com igreja. É uma bancada de princípios, de valores. Poderíamos chamá-la de bancada conservadora”, disse. A proposta tem o apoio do presidente da Frente Parlamentar Católica, Luiz Gastão (PSD-CE), e do presidente da Frente Parlamentar Evangélica, Gilberto Nascimento (PSD-SP).

Estado laico

A líder do Psol, deputada Talíria Petrone (RJ), criticou o projeto por estabelecer “uma relação de aliança e preferência de natureza religiosa dentro da estrutura do Legislativo federal, o que é proibido pelo princípio da laicidade”. “O espaço político não pode privilegiar com voz e voto no Colégio de Líderes uma fé professada”, afirmou.

De acordo com ela, as bancadas negra e feminina só existem por conta da desigualdade histórica de gênero e raça na representação do Congresso. “É papel, também previsto na Constituição, garantir igualdade entre homens e mulheres, também por políticas afirmativas, para corrigir a desigualdade histórica, que não tem a ver com religião”, declarou.

Para o líder do PDT, deputado Mário Heringer (MG), a criação da bancada discrimina outras religiões. “Quando nós fazemos essa escolha, nós estamos discriminando. Nós estamos discriminando as outras religiões”, afirmou.

Já o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) afirmou que a crítica por criar a bancada cristã é pela possibilidade de o movimento conservador se organizar na Câmara. “Esse é o desespero: com a bancada cristã, o movimento conservador ganha força neste Plenário. Isso eles não querem”, disse.

Frente x bancada: qual a diferença?

As frentes parlamentares são grupos informais de deputados e senadores organizados em torno de temas específicos, como segurança pública, agricultura ou direitos humanos. Elas não têm poder de voto nem assento em instâncias decisórias.

As bancadas, ao contrário, possuem reconhecimento regimental. Isso lhes garante voz e voto nas reuniões de líderes, além de poder indicar representantes para comissões e influenciar na definição da agenda legislativa.

A criação da Bancada Cristã, portanto, elevaria o grupo ao mesmo patamar institucional das bancadas feminina e negra, fortalecendo sua capacidade de articulação política dentro da Casa.

A proposta será discutida novamente na reunião do Colégio de Líderes desta quinta-feira (23). Caso receba aval dos líderes partidários, o projeto poderá ser incluído na pauta de votações ainda nesta semana.

Se for aprovada, a Bancada Cristã passará a ter direito a voto nas deliberações internas, poderá indicar membros para comissões e participar das decisões estratégicas da Câmara. A expectativa é que o novo grupo se consolide como uma das principais forças políticas do Congresso, com influência direta nas pautas de costumes e valores morais.

Fonte: Agência Câmara de Notícias e Comunhão via Folha Gospel


domingo, 14 de setembro de 2025

Esta talvez seja a maior ameaça ao cristianismo evangélico atual





É preciso discernimento para perceber e agir diante dessa mudança de uma cultura literária e escrita para uma cultura de oralidade digital



Qualquer organização — seja ela uma empresa, um ministério, uma escola — normalmente se pergunta quais são as maiores ameaças à sua missão. A premissa que está por trás dessa pergunta é que os obstáculos mais perigosos são aqueles cuja aproximação sequer percebemos.

Considere, apenas por um momento, que a maior ameaça ao cristianismo evangélico pode não ser aqueles perigos sobre os quais tanto discutimos e para os quais até criamos estratégias — não é a secularização, não são os debates sobre sexualidade, não é a prisão política, nem o colapso institucional, nem os perpétuos escândalos, nem mesmo a fragmentação e a polarização.

E se todas essas coisas forem meros sintomas da ameaça mais perigosa para a igreja, desde os tempos da Reforma? E se essa ameaça estiver literalmente bem diante dos nossos olhos?

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Em seu livro The Future in the Rearview Mirror [O futuro digital visto pelo retrovisor], Andrey Mir baseia-se no trabalho de estudiosos da mídia, como Marshall McLuhan, Walter Ong e Eric Havelock, para argumentar que os avanços tecnológicos de nossa época estão causando uma mudança muito maior do que a provocada pela Revolução Industrial.

Mir afirma que o que está acontecendo ao nosso redor é semelhante ao que aconteceu na Era Axial, descrita pelo filósofo Karl Jaspers — quando houve uma mudança fundamental na consciência humana, que está ligada ao surgimento de mudanças na linguagem humana, aproximadamente entre 800 e 200 a.C. A Era Axial levou ao surgimento tanto das principais tradições religiosas que conhecemos hoje quanto da ciência, da agricultura, da indústria e da cultura.

A despeito das diferenças existentes entre os estudiosos com quem Mir interage, todos eles concordam que a principal mudança da Era Axial foi na questão da mídia — a transição da mídia oral para a mídia escrita. E isso vai além da mera forma que a informação assume.

As culturas de oralidade são "espirituais" no sentido de o ser humano estar constantemente inserido em um ambiente — e ter todos os seus sentidos ativos e em alerta ao mesmo tempo. Em uma cultura oral, as histórias são transmitidas por meio da repetição, geralmente por meio de cantos ou de contação de histórias, e frequentemente são histórias épicas e heroicas de glórias ou de tragédias do passado. Isso requer uma espécie de conexão totêmica [relação mística com um objeto ou ser espiritual que serve como emblema e símbolo de identidade e ancestralidade] com a natureza e um apego coletivo à tribo. Geralmente, também requer algum tipo de xamã, que é o guardião dessas histórias.

A cultura escrita não muda apenas a maneira como o pensamento é transmitido, segundo Mir, mas reestrutura o pensamento por completo. Exige que a pessoa se desligue momentaneamente dos outros sentidos para se concentrar em apenas um: a visão, o que permite uma introspecção. Isso cria o espaço psicológico para a pessoa ser um indivíduo, sintetizar particularidades em categorias e contrastar sua vida interior com a história geral da tribo.

Somente com essa introspecção é que um indivíduo pode se distanciar da consciência coletiva, mesmo que momentaneamente, e vivenciar uma transformação pessoal. E consegue ter o potencial para um relacionamento pessoal com Deus que transcende a religião tribal e totêmica.

Não foi por acaso, segundo observa Mir, que a mudança da oralidade para a escrita tornou possível o que ele chama de "as grandes tradições religiosas introspectivas", como o judaísmo, o cristianismo, o budismo e o islamismo — todas elas com seus respectivos textos sagrados.

Mir acredita que a aceleração da tecnologia nos dias de hoje significa que o que enfrentamos agora é uma Década Axial, na qual, em poucos anos, toda a estrutura da vida humana será novamente transformada.

As transformações midiáticas da internet, dos smartphones, das mídias sociais e da inteligência artificial estão, de muitas maneiras, desfazendo a mudança feita na Era Axial [da oralidade para a escrita], em direção ao que Mir chama de "oralidade digital".

A escrita exigia atenção focada e reflexão interna. Mas isso agora foi substituído por algo que, apesar de requerer alguns aspectos da escrita — como um alfabeto, por exemplo —, se assemelha mais à oralidade. A vida digital tem menos a ver com a leitura de um texto e mais a ver com o ato de juntar-se a um canto tribal. Ela recompensa a reverberação da identidade tribal em detrimento de qualquer tipo de busca pela verdade objetiva.

Estamos acostumados a debates sobre se a verdade é descoberta ou revelada. Em uma estrutura de oralidade digital, nenhuma dessas duas coisas acontece. Em vez disso, a verdade é encenada.

E verdades encenadas devem ser emotivas, coletivas e compartilháveis. Na cultura das mídias sociais, como argumenta Mir, agora "elegemos a verdade com nossos cliques", da mesma forma que as aldeias de outrora aplaudiam o bardo [poeta-cantor que transmitia oralmente mitos, lendas e histórias de seu povo, acompanhado por música]. Em vez de perguntar "o que é verdade?", sem sequer perceber, nós estamos perguntando: "A verdade de quem merece os nossos aplausos?".

Dentro da igreja, frequentemente nós nos pegamos batendo boca por causa do último acontecimento ruim do momento — daí a crítica implacável ao individualismo. Contudo, Mir argumenta que, com o surgimento da oralidade digital, o que enfrentamos agora não é o individualismo, mas sim a substituição dos indivíduos pelo que ele chama de "divíduos" [ou seja, Mir retira o "in" da palavra como forma de dizer que agora são seres incapazes de introspecção, de reflexão interna].

Algoritmos customizam tudo para nós, não com base em quem somos pessoalmente, mas por categorias mediante as quais possamos ser comercializados. Isso coincide, segundo ele argumenta, com as políticas identitárias que hoje caracterizam tanto a direita quanto a esquerda na sociedade ocidental. Nós nos vemos definidos por características de marcadores identitários que afundam e absorvem nosso "eu" no aspecto político ou na tribo consumidora.

Isso, como argumenta Mir, leva a uma "retribalização digital" de identidades compartilháveis, para a qual a lealdade tribal parece ser, novamente, uma questão de vida ou morte. Um subproduto dessa retribalização é a incapacidade de assumir o tipo de distanciamento que, por exemplo, colocaria verdades e princípios acima da mera definição de quem são nossos amigos ou inimigos, daqueles que são "um de nós" e daqueles que não são.

Além disso, em uma estrutura digital, a pessoa tende a se fundir não apenas com a tribo, mas também com o próprio ambiente imersivo. Observe como o seu span de atenção diminui, mesmo que você esteja tentando ler a Bíblia, quando está constantemente ligado nas notificações, alertas e estímulos para acompanhar na internet outra discussão de ideias, para conversar com outra pessoa.

A Bíblia descreve as correntes cruzadas de consciência que hoje enfrentamos. Observe, após o êxodo do Egito, o contraste entre Moisés — que ficou a sós com Deus no Sinai e recebeu dele um texto escrito, os dez mandamentos inscritos em pedra — e o povo que ficou lá embaixo do monte.

O povo queria uma experiência religiosa característica da oralidade primária. Queriam fundir-se com a natureza, com o poder e a fertilidade do bezerro feito com ouro. Queriam um totem, não uma Torá. E pediram que Arão fosse um xamã, e não um profeta — que ele criasse uma verdade religiosa conforme o que eles exigiam, ou seja, uma experiência religiosa sensorial, comunitária e imediata.

Mas o caminho do Deus de Abraão, Isaque e Jacó era bem diferente disso, pois não exigia um mero assentimento tribal, mas uma obediência pessoal e consciente (Dt 30.11-20).

Seja lá qual forem as outras coisas que o cristianismo evangélico traz para o restante do corpo de Cristo, há duas coisas que são preponderantes: uma ênfase na necessidade de transformação pessoal e interna e uma ênfase na autoridade do texto das Escrituras e que está acima da lealdade ou da identidade a tribos ou a instituições.

A transformação pessoal é fácil de caricaturar, com o revirar de olhos em apresentações evangelísticas que perguntam "você tem um relacionamento pessoal com Jesus?", embora ela preserve uma verdade essencial do evangelho. Se todo o Israel seguir Acabe na adoração a Baal, ainda assim haverá um Elias.

O rei e os profetas da corte podem até concordar a respeito de qual verdade conta como lealdade, mas isso ignora como Jeremias pode ser, de fato, aquele que carrega uma palavra de Deus. Alguém pode deixar pai e mãe — como Pedro, Tiago e João fizeram — ou pode deixar a sua identidade como cobrador de impostos, como Mateus fez, e responder ao chamado de Jesus: "siga-me". Esse chamado não se aplica apenas a categorias ou a instituições, mas sim a pessoas.

O evangelho é mais do que "Eu e Jesus", sem dúvida; mas ai de nós se ele for menos do que isso. Para ser ouvida, uma pessoa precisa ouvir mais do que apenas a "verdade" coletiva da tribo. Precisa ouvir, acima de tudo, a voz que pergunta: "Mas e vocês? […] Quem vocês dizem que eu sou?" (Mateus 16.15, ênfase acrescentada).

A ênfase evangélica na Bíblia, na autoridade do texto das Escrituras, é igualmente de importância crucial. Ela pode levar a algum tipo de "biblicismo" que se proponha a ignorar a história da igreja e a sabedoria dos séculos? Claro que pode. Poderia a ênfase na memorização e na meditação pessoal dos textos da Bíblia levar pessoas a, erroneamente, concluir que a leitura coletiva das Escrituras não é importante, ou a fazer uma leitura seletiva da Bíblia de forma que ela se alinhe a preconceitos preexistentes? Sim, poderia.

Mas, sem esse encontro pessoal com as Escrituras, o que nos resta é o tipo de lealdade tribal que Jesus diz que pode fazer com que ele tire da igreja o candelabro da sua presença. Cada geração deve atentar para estas palavras: "Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas" (Apocalipse 3.22).

A doutrina da inerrância bíblica tem sido usada, às vezes, por pessoas mal-intencionadas que buscaram sustentar sua própria autoridade; porém, isso não significa que essa doutrina não seja verdadeira. Por trás do conceito de inerrância há uma afirmação que visa, a longo prazo, frustrar as pretensões dos xamãs e dos bardos.

Deus falou — e falou em verdade — ao seu povo mediante um Verbo/uma Palavra que se estende para além deles; um Verbo/uma Palavra que convida esse povo a ouvir e a ser transformado. A ênfase evangélica na Bíblia nos lembra que a questão principal não é se "Esta verdade é conveniente?". Nem é se "Esta verdade me levará a ser exilado da minha comunidade?". E menos ainda se "Esta verdade vai encontrar um público expressivo?". Antes, a questão principal é esta: "Assim diz o Senhor".

O evangelho não é uma ferramenta para sustentar o individualismo, ainda que sem um certo tipo de individualismo não possamos ouvir o evangelho. Assim como os Efésios fizeram em relação ao templo de Ártemis, nós só podemos ouvir a afirmação da verdade que sustenta a glória do grupo (Atos 19.27). E, também como no caso de Ártemis, essa afirmação da verdade geralmente é sustentada por quem lucra com ela (v. 25), bem como por qualquer multidão que seja incitada a se enfurecer contra qualquer coisa que ameace essa verdade (v. 28).

A oralidade digital não é um obstáculo definitivo para o evangelho nem para a Bíblia — nada o é. Mas se não reconhecermos a maneira como essa oralidade está nos remodelando, não seremos capazes de discordar das maneiras como ela pode nos anestesiar e nos impedir de ouvir o evangelho e de refletir com profundidade sobre a narrativa das Escrituras. Se o que estiver em jogo for a cultura escrita, os custos são altos — democracia, ciência, Estado de Direito —, mas nenhum desses custos é eterno.

O que realmente está em jogo é muito mais do que tudo isso. Se não enxergarmos e identificarmos essa atração irresistível pela oralidade digital, nos conformaremos a ela. Trocaremos, então, a característica distintiva do testemunho evangélico, como o apelo ao arrependimento pessoal e à fé, como povo do Livro, por algo que é ainda pior do que o deísmo terapêutico moral: o totemismo da oralidade digital.

Isso deixará para um futuro Josias a tarefa de convocar o povo a perceber o que se perdeu: a Palavra do Senhor, que está tão oculta que dela as pessoas nem ao menos sentem falta, e os ossos do profeta esquecido, que alertou sobre o que acontece quando a lealdade tribal substitui a Palavra (2Reis 22.9–23.20).

Não podemos impedir que o meio seja a mensagem, como McLuhan alerta. Não podemos deter mudanças, sejam elas axiais ou não, visto que são muito maiores do que qualquer um de nós.

Mas podemos decidir preservar a nossa atenção. Cada um de nós pode se determinar a cultivar um foco na Palavra escrita de Deus e na solitude interior da oração. Podemos manter vivo aquilo que ainda se pode ouvir e, portanto, que ainda se pode dizer: "Vocês precisam nascer de novo".

Este artigo foi adaptado da newsletter de Russell Moore. Inscreva-se aqui.

Fonte: Christianity Today

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

VENEZUELA - Crescimento de Evangélicos e o oportunismo de Maduro




Com apoio de Maduro e boom de fiéis, igrejas evangélicas com atuação no Brasil crescem na Venezuela



O ditador Nicolás Maduro explora a religiosidade e até o misticismo para se manter no poder. Ele já disse que um passarinho lhe transmitiu mensagem do falecido líder Hugo Chavéz. E nunca retira do dedo mindinho seu anel de esmeralda verde, que teria sido um presente de um guru indiano.

Já nos últimos anos, vem se aproximando cada vez mais dos evangélicos que crescem de forma exponencial no país, angariando o apoio inclusive da Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo brasileiro Edir Macedo.

Críticos veem na movimentação oportunismo: seria uma forma de conter a perda da popularidade após anos de abuso dos direitos humanos, crises políticas e econômicas, além de eleições apontadas como fraudulentas. E o setor visado é estratégico - a cada ano, os evangélicos se multiplicam na Venezuela como em poucos países.

Pesquisa do instituto Latinobarómetro mostra que 2,1% dos venezuelanos se diziam evangélicos em 2010. Em 2023, o número já representava quase um terço da população: 30,9%. Abocanharam, sobretudo, fatia da Igreja Católica, que vem perdendo fiéis.

Em níveis percentuais, os evangélicos na Venezuela superam a média dos 17 países analisados da América Latina, de 23%, de acordo com o mesmo instituto. "Em um país com tanta incerteza, com uma crise humanitária como a que se vê, as pessoas recorrem à fé. Quando não resta mais nada, agarram-se à fé", afirma a venezuelana Dhayana Fernández, professora da Universidad Central da Venezuela e da Universidad Simón Bolívar, na Colômbia.

A aproximação de políticos com grupos evangélicos não é um movimento inédito na Venezuela. Nunca, porém, a religião havia sido tão instrumentalizada como no regime de Maduro, diz Fernández, que pesquisa sobre direitos humanos.

Inclusive igrejas brasileiras ganham espaço no país. No ano passado, o bispo Ronaldo Santos, representante da Universal na Venezuela, foi orador de um culto que teve a presença de Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores. Em um espanhol macarrônico, fez acenos ao regime.

"Podemos, meu Deus, ter sanções e bloqueios de todas as partes do mundo, mas não do céu. O céu está aberto sobre esta nação, sobre este país", afirmou Santos. "Então, meu Pai, eu te peço: faça cair os bloqueios, as sanções e tudo o que tem impedido este país de avançar, de ir adiante."

Chama a atenção o posicionamento diferente do manifestado pela Universal no Brasil. Em 2022, o bispo Renato Cardoso, genro de Edir Macedo, publicou texto em que listava cinco argumentos para sustentar que não é possível uma pessoa ser, ao mesmo tempo, cristã e de esquerda, a vertente política da qual Maduro diz pertencer.

Luciano Gomes dos Santos, doutor em teologia e que faz pesquisas na área, acredita que o objetivo da Universal seja obter uma concessão de TV na Venezuela. A organização, diz, adere a um conceito conhecido como igrejas eletrônicas, nas quais instituições utilizam a mídia para expandir o alcance e a influência.

Esse movimento ganhou força a partir da década de 1970 com a teologia da prosperidade, uma corrente teológica segundo a qual a fé em Deus leva à riqueza material e à saúde física. Trata-se de uma contraposição à teologia da libertação, popular entre católicos latino-americanos e que foca as desigualdades sociais, afirma Santos, também professor de ciências sociais no Centro Universitário Arnaldo Janssen, em Belo Horizonte.

Questionada pela reportagem sobre o evento de Ronaldo Santos com Maduro, a Universal disse que a igreja de cada país dispõe de total autonomia administrativa. Em nota divulgada após o ato do pastor, com o título "Pregação do Evangelho não é ato político e partidário", também falou em distorção de fatos. "A solenidade religiosa pelo Dia Nacional do Pastor foi completamente deformada por alguns jornalistas, como se fosse um ato político e partidário."

Próximo dos evangélicos, Maduro tem implementado programas que beneficiam as igrejas. Em 2023, o regime lançou o "Minha Igreja Bem Equipada", que faz reformas e oferece mobiliários aos templos. No ano seguinte, foi criado o "Bônus do Bom Pastor", que oferece ajuda financeira mensal a cerca de 20 mil líderes. Também em 2024, o ditador anunciou plano para diminuir impostos de organizações religiosas.

E as diretrizes da legenda de Maduro, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), para o setor são acompanhadas de perto por familiares do líder. Em 2022, Nicolás Ernesto Guerra, filho do ditador, foi nomeado para a vice-presidência de assuntos religiosos da sigla.

Pastores também estão diretamente envolvidos com a política. É o caso do deputado suplente Moisés García, do PSUV e que também é presidente do Movimento Cristão Evangélico pela Venezuela (Mocev), organização que diz ter 5.000 integrantes e é considerada um braço do chavismo na comunidade evangélica. Em suas redes sociais, aparecem com destaque fotos suas ao lado do ditador.

Ainda que o regime transmita uma ideia de união, não são todos os pastores evangélicos que apoiam a aliança com Maduro. Mas, de acordo com a ONG Portas Abertas, que monitora cristãos perseguidos pelo mundo, as autoridades venezuelanas não toleram qualquer oposição ou crítica ao regime, e existem riscos de represálias.

"Os cristãos não devem denunciar corrupção, falta de práticas democráticas e violações dos direitos humanos, demonstrar apoio aos líderes da oposição ou se envolver em trabalho humanitário. Caso ‘desobedeçam’, enfrentam ameaças, ataques a igrejas, difamação, prisões arbitrárias, vigilância, censura, acesso restrito a serviços públicos e negação de itens básicos, como alimentos e remédios", diz a ONG.

Em ranking elaborado pela Portas Abertas de países que mais perseguem cristãos, a Venezuela aparece atualmente na 71ª posição. No ano passado, quando Maduro foi declarado vencedor em pleito apontado como fraudulento, o país estava no 53º lugar.

No Brasil, o número de evangélicos também cresce, e eles representavam 26,9% da população, o segundo maior bloco religioso, atrás dos 56,7% que disseram professar a fé católica, de acordo com dados do IBGE divulgados em junho.

A Assembleia de Deus, outra igreja evangélica com atuação no Brasil, também tem presença na Venezuela, estando principalmente na região amazônica do país, segundo o pesquisador Luciano Gomes dos Santos.

Raimundo Barreto, professor do departamento de história no seminário teológico de Princeton, nos Estados Unidos, aponta como um dos motivos para a expansão dos evangélicos no continente a maior flexibilidade em relação à ordenação ao pastorado.

Na Venezuela, esse contexto é amplificado pelas sucessivas crises. "Em um momento em que você não tem para onde correr, a grande esperança se torna uma intervenção divina", afirma.

Fonte: Jornal de Brasília

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