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quarta-feira, 30 de abril de 2025

EPAFRODITO, UM OBREIRO DISCRETO, UM EXEMPLO A SER SEGUIDO




EPAFRODITO, UM OBREIRO DISCRETO, UM EXEMPLO A SER SEGUIDO (FP. 2.25-30) - O Currículo De Um Obreiro Fiel Aprovado Por Deus - Por Pr. José Verneques

Por: Pr. José Verneques Santos


INTRODUÇÃO

     O nome Epafrodito é derivado da união das palavras gregas "epi", que significa "sobre" ou "acima", e "Aphrodite", referente à deusa do amor e da beleza, Epafrodito tem sua raiz na mitologia grega e significa: "agradável a Afrodite ou, dedicado a Afrodite", carrega consigo uma história mitológica fascinante, sendo o nome derivado de "Aphrodite", a deusa grega do amor, da beleza e da sensualidade. Segundo a mitologia, Epafrodito era filho de Afrodite com Hermes, o mensageiro dos deuses. Sua beleza e graça eram tão excepcionais que até os próprios deuses se encantavam com ele. 

     Deixando de lado questões mitológicas, quero me deter apenas ao texto bíblico descrito por Paulo em Filipenses 2.25-30, onde o apóstolo nos apresenta Epafrodito como uma pessoa que deu uma contribuição fundamental para o crescimento do evangelho naqueles dias de perseguições à igreja. Epafrodito era um obreiro discreto e "servo nos bastidores" no bom sentido do termo. Era um obreiro que se empenhava em não aparecer ou estar sob holofotes, e buscava agir de modo discreto a serviço do Reino de Deus. Paulo tinha por ele um cuidado especial, tendo em vista a prova de sua fidelidade para com Deus, a igreja e o apóstolo, num momento crucial da vida desse último.

UM OBREIRO DISCRETO QUE CONTRIBUIU COM EXCELÊNCIA PARA O REINO DE DEUS

     Epafrodito foi enviado pela igreja de Filipos para levar até Paulo na prisão uma oferta de amor da parte daquela comunidade para ajudá-lo a suprir suas necessidades e aliviá-lo de suas dores pelo peso do cárcere. Sua missão era ficar mais tempo com o apóstolo confortando-o e auxiliando-o. Mas Paulo ainda que sofrendo as intempéries de uma prisão, não deixou de perceber a importância que aquele servo tinha para aquela igreja e, por conta disso não o manteve consigo, mas deu-lhe ordens expressas para que voltasse até a comunidade local que o enviara. A grandeza de espírito do principal dos apóstolos é aqui notada, Paulo não pensou em si mesmo, ainda que tivesse todo o direito de fazê-lo. Ele renunciou a suas prerrogativas pensando no bem-estar da igreja de Cristo em primeiro lugar.

     Diferente da cultura eclesiástica ensinada e praticada em muitos lugares por muitos obreiros destes dias, onde a filosofia costuma ser: "Em primeiro lugar Deus, em segundo a familia e, em terceiro lugar a igreja". Paulo demonstra um contraste nítido em seu pensamento com relação ao pensamento supracitado. Ele sabia mais que qualquer outra pessoa que ao ser chamado por Deus para servi-lo como apóstolo, essa distinção era impossível, primeiro porque Deus não chama alguém que não cuida de sua família (1Tm. 5:8); segundo, porque não há sensatez em viver dizendo que "ama" a Deus mas não tem obrigação de amar e servir a sua igreja, tal filosofia é incompatível com a vocação ministerial exposta nos evangelhos e nas cartas paulinas.

     Vemos claramente que as qualificações de Paulo e Epafrodito vão de encontro a essa forma de praticar o serviço cristão, posto que ambos se deram pelo Reino de Deus mais do que por si mesmos e em nenhum lugar da Escritura acha-se algum tipo de reprovação a eles por parte de Deus. Obviamente que as Escrituras Sagradas nos exorta a cuidarmos de nós mesmos, pois que se negligenciarmos e não atentarmos para as fragilidades e necessidades do corpo físico e mental, da nossa realidade social, produziremos muito menos do que poderíamos produzir para o Reino de Deus, sendo assim, buscar o equilíbrio é o caminho mais sensato. Por outro lado, o discurso presunçoso de que para servir a Deus não é preciso se desgastar na sua obra, como se fora possível cumprir a vocação ministerial sem renúncia, constitui-se em falácias reproduzidas por acadêmicos preguiçosos que não simpatizam com a evangelização, que não têm disposição de sair de seu lugar de conforto em busca dos perdidos, primando por teorias evangelicais. Não foi à toa que Jesus, ao escolher doze homens para dar seguimento ao seu projeto de igreja, passou pelas "academias teológicas" daqueles dias e preferiu escolher pescadores em sua maioria, com calos nas mãos, experimentados nos trabalhos e acostumados a acordarem cedo para enfrentar o labor do dia. Sem trabalho, tudo se desfaz.

     Voltemos a Epafrodito. Ao examinar o texto, percebe-se que ele contém no seu bojo uma riqueza de detalhes não somente para aqueles dias, mas também para os dias atuais, tão conturbados que são. Nele o apóstolo dos gentios revela qualidades de excelência na vida daquele servo fiel que são fundamentais para a comunhão entre os irmãos e para a doutrina eclesiástica desses dias:

"Julguei, contudo, necessário mandar-vos Epafrodito, meu irmão e cooperador, e companheiro nos combates, e vosso enviado para prover às minhas necessidades".

Note: "Julguei, contudo, necessário mandar-vos Epafrodito..." a frase paulina denota uma ordem imperativa – mandar-vos. Mandar aqui em relação a Epafrodito está no sentido de enviar, mas de modo geral a palavra tem o sentido de dar ordens, constata-se que muitas pessoas atualmente têm enormes dificuldades com esse verbo, muitas delas se sentem humilhadas quando alguém lhes dá uma ordem, seja numa condição hierárquica de instituição secular ou religiosa, pública ou particular. No caso em questão estamos falando da igreja, sobretudo da comunidade cristã local, posto que nela haja não poucos obreiros com sérias dificuldades de aceitar a hierarquia estabelecida.

     Comumente, é naturalmente bíblico que dentro da igreja haja, sob o prisma organizacional, pessoas escolhidas para supervisionar os trabalhos concernentes ao serviço cristão realizados nas comunidades cristãs e essas pessoas naturalmente darão ordens a outras para que o serviço propriamente dito seja feito com excelência e produza frutos para o Reino de Deus, tudo isso dentro de um clima de amor e igualdade entre a irmandade, sem que haja grandeza de coração entre aqueles que foram escolhidos para supervisionar a obra de Deus e tenham sido colocados sobre outros. O Senhor Jesus nos deixou o exemplo (Mc. 10:43,44); e antes de ascender ao céu deu ordens expressas aos discípulos para que fizessem novos discípulos e os instruíssem em tudo quanto foram ensinados (Mt. 28:18-20); na mesma linha Paulo nesta mesma carta exorta aos irmãos de Filipos a nada fazer para o Senhor senão por humildade:

"Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo." ( Fp. 2:3) 

O RECONHECIMENTO PÚBLICO POR PAULO AFIRMOU O VALOR DO TRABALHO DE EPAFRODITO

    "[...] Meu irmão..."  Antes de comunicar a necessidade eclesiástica, Paulo fez questão de destacar a convivência pessoal e da amizade fraternal que ele tinha com Epafrodito. Aquele obreiro ia além de seu valor funcional para Paulo, ele o tinha como alguém que traspassava os limítrofes eclesiásticos e se aproximava de sua amizade pessoal, para o apóstolo dos gentios Epafrodito era tido como um irmão, sua proximidade permitia que ele conhecesse as necessidades do apóstolo, suas fraquezas e temores, aspectos que somente os mais chegados podem perceber; que são obtidos apenas por aqueles que se amam em Cristo e se respeitam fraternalmente. No Novo Testamento a palavra phileo é usada para expressar o amor de pai e mãe e de filho e de filha (Mt.10:37). É usada também para revelar o amor de Jesus por Lázaro (Jo. 11:3,36), phileo ainda revela a comunhão estreita que Jesus tinha com João, o discípulo amado (Jo. 20:2).

     Amar o próximo como a si mesmo é um mandamento atemporal (Mt. 22:39). Além do amor ágape, o amor fraternal, conhecido como amor phileo é também o amor dado por Deus para que os irmãos amem-se uns aos outros independente de suas posições eclesiásticas ou sociais, é aquele amor que sentimos pelos nossos amigos, especialmente os mais íntimos. O amor fraternal está ligado a um afeto profundo e um compromisso mútuo entre os membros da igreja de Jesus, testificando desse modo ao mundo a união na comunidade e o zelo no relacionamento entre aqueles que seguem a Cristo, este é o amor que faz o mundo crer que nós somos discípulos de Cristo:

"Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." (Jo. 13.35)

     Como Paulo, os pastores precisam de obreiros amigos em quem ele possa confiar e contar suas dificuldades enfrentadas no ministério, na lida pastoral o pastor por vezes é um crente solitário, se torna alguém com poucos amigos e, consequentemente, com poucas pessoas para compartilhar suas dores, decepções, frustrações e fraquezas, quando encontra alguém com as características de um Epafrodito, certamente estará diante dele alguém que o ajudará de forma extraordinária não somente na vida ministerial, principalmente na vida emocional. Para Paulo Epafrodito era antes de tudo, um irmão, e isso fez uma diferença exorbitante naquele momento de seu ministério. Roguemos a Deus para que Ele levante muitos Epafroditos nestes dia de liquidez e frieza relacional entre irmãos.

     "[...] E cooperador..." Epafrodito era um obreiro dado à obra do Senhor, em primeira mão Paulo o chama de cooperador: (Com o operador), ou seja, aquele obreiro era alguém que andava com o dono da Igreja, tinha sintonia com o Senhor, certamente essa era a razão maior de seu excelente caráter e de seu compromisso com a comunidade cristã. Cooperar com alegria e disposição no serviço cristão é se colocar à disposição do Reino de Deus tendo-o em alta conta, quem assim o faz pode colher os frutos de seu trabalho com satisfação e consciência tranquila, pois sabe que todas as vezes que o Senhor o convocou ele pode dizer: "Eis-me aqui, envia-me a mim."

     Apesar de Epafrodito não se preocupar em aparecer, e se entregar ao serviço do Senhor de todo o seu coração, o apóstolo Paulo faz questão de afirmar o valor de seu trabalho, como era de seu costume Paulo não tinha ciúmes de alguém que se dispusesse a fazer a obra de Deus, ele aliás orava ao Senhor por eles. É muito bom quando a liderança eclesiástica não se sente insegura pelo despontamento de algum irmão que com afinco se destaca no serviço de Deus, posto que estes precisam ser acolhidos e incentivados a continuarem usando seus talentos para o crescimento da igreja de Cristo, tentar tolhê-los é uma atitude pequena demais para alguém que está na posição de liderança.

     "[...] E companheiro nos combates..." Dentre muitas qualidades, Paulo destaca também que Epafrodito era mais que amigo, era um companheiro e um obreiro destemido no que tangia ao serviço do Senhor. A palavra companheiro vem do latim "companio, aquele que compartilha o pão", (cum = com + panis = pão), tem a ideia de alguém que divide a comida, demais atividades e, por fim, a vida. Epafrodito era um obreiro completo, não recuava por ouvir ameaças e/ou críticas, ele não desistia do propósito pelo qual era enviado por coisas banais e corriqueiras e, no que dependesse dele, o trabalho de Deus seria feito, ainda que isso lhe custasse a vida. Que exemplo de obreiro fiel!

     Companheiro nos combates não significa ser um soldado adestrado para lutar as batalhas carnais, pelo contrário, tais combates estavam no âmbito espiritual, nisso Epafrodito também se identificava com Paulo, que era acostumado a enfrentar pelejas teológicas e espirituais, sem em nenhum momento negar o nome de Cristo ou deixar de defender a doutrina da graça dada pelo Senhor, Paulo combateu legitimamente todas as guerras pertencentes à fé cristã e foi o principal propagador do Reino de Deus no cristianismo: "Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé." (2 Tm. 4:7).

PAULO O RECONHECE COMO OBREIRO FIEL E DE SUMA IMPORTÂNCIA PARA O REINO DE DEUS

     "[...] E vosso enviado para prover às minhas necessidades..." Epafrodito não é apenas apresentado como cooperador, ele também é colocado por Paulo como Apóstolo (no sentido de ser enviado), verdade é que na mente paulina não havia uma distinção no propósito do uso dos dons como vemos hoje, para além disso, no que concerne ao Reino de Deus o apóstolo é um cooperador como todos os demais irmãos (Rm. 16:21; 1 Tss. 3:2), Paulo não tinha em mente a "hierarquia eclesiástica pentecostal", mas sim a igualdade entre os irmãos no serviço prestado a Deus. Com isso não faço uma crítica a hierarquia pentecostal, somente busco aclarar a mente do leitor para o sentido que o texto está de fato mostrando. Para além disso, a dedicação e eficácia do mensageiro é digna de ser louvada.

     Aqui também chama a atenção que, mesmo num passado remoto onde a comunicação era precária, aquele obreiro cumpriu na íntegra a ordem recebida. Diferente dos dias atuais onde a comunicação é farta mas há uma dificuldade enorme de ser transmitida ou cumprida de forma eficaz. Desse modo, mais que nunca cabe aqui a frase de Lacan: "Você pode saber o que disse, mas nunca o que o outro escutou" (LACAN) , pois que, se por um lado temos uma cadeia enorme de veículos de comunicação de massa, por outro lado temos também uma rede sem fim de falsas informações, capazes de levar incautos a cometer coisas horríveis, resta-nos peneirá-las e extrair as confiáveis e verdadeiras e, na medida do possível, usar o método cartesiano para checar a origem das informações. 

     Além do amor fraternal manifestado por Paulo, percebe-se que Epafrodito também tinha um amor especial e um compromisso inigualável com a igreja de Cristo naquela região, a qual estava sempre a seu serviço.

"Porquanto tinha muitas saudades de vós todos, e estava muito angustiado de que tivésseis ouvido que ele estivera doente." (2.26).

A saudade que Epafrodito nutria pelos irmãos de Filipos era muito grande, mas ele foi impedido de retornar em tempo hábil por ter sido acometido por uma enfermidade. Seu coração se angustiou mais ainda quando soube que a igreja foi informada de sua enfermidade, ou seja, Epafrodito se angustiou porque soube que a igreja estava triste ao saber que ele estava enfermo. Que obreiro especial, que coração cheio de amor pelo Reino de Deus! Em meio a tudo isso, Paulo o recomenda à igreja, para que essa o receba do modo digno que ele deve ser recebido: "Recebei-o, pois, no Senhor com todo o gozo, e tende-o em honra" (2.29), em outras palavras, a comunidade de Filipos deveria recebê-lo no Senhor, como usam fazer os santos. Era o mínimo a ser feito por um obreiro comum, porém digno de grande honra e estima.

CONCLUSÃO

     Epafrodito nos deixou um grande exemplo a ser seguido, com ele aprendemos que para prestar um serviço de excelência ao Reino de Deus não é necessário ser alguém conhecido ou famoso, não é preciso trilhar por um caminho que tenha holofotes ou aplausos humanos como um meio ou um fim, mas sim, basta aplicar o coração para servir a Deus com amor genuíno, sem se preocupar em ser visto, apenas dedicar-se ao serviço de Deus com um coração agradecido e fiel.


SOLI DEO GLÓRIA.



Pr. José Verneques Santos
Presidente da AD - Ministério Paulista
Primeiro Secretário da COMADESPE
Graduado em Teologia IBAD/FABAD
Pós-graduado em Ciências da Religião FATEMIG/IBEMIG
Autor dos Livros:
.Jornada Ministerial
.A Suficiência do Evangelho de Cristo para Sua Igreja
.Igreja e Política, Caminhos Paralelos Para Alvos Diferentes
.Por um Discipulado Segundo Jesus Cristo
.O Deus Homem, A Incomparável História de Jesus Cristo

sexta-feira, 25 de abril de 2025

A TEOLOGIA DA GRAÇA NA PERSPECTIVA DO DIREITO



A TEOLOGIA DA GRAÇA NA PERSPECTIVA DO DIREITO - A FORMA DA GRAÇA AGIR DIANTE DA LEI



Por: Pr. José Verneques Santos


"Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo." (Jo. 1.17)


INTRODUÇÃO

   O tema, a forma e o funcionamento do direito se aplica ao modo judaico-cristão de fazer teologia. Teologia é a forma do direito tratar o cristianismo, sendo assim, teologia cristã é direito. No nosso pensamento, o cristianismo vem do judaísmo, portanto, nossa teologia é judaico-cristã. É somente a partir de Paulo, que o cristianismo começa a se distanciar do judaísmo e vai se tornando cada vez mais gentio. Com esse descolamento feito, o cristianismo paulatinamente vai deixando de ser judaico e passando a agir sob vieses diferentes de quando ainda estava colado ao judaísmo, com todos os seus preceitos mosaicos observados (circuncisão, sacrifícios, sábados, idolatrias etc.), que embora os tornasse forte, destoava do seu objetivo.

A IMPORTÂNCIA DA TEOLOGIA CRISTÃ NA LEI/DIREITO


"Porque a lei opera a ira. Porque onde não há lei também não há transgressão." (Rm 4:15)

   A forma teológica dentro do judaísmo, o modo como lidava com as questões civis, religiosas e cerimoniais era a partir da lei. A lei é o modelo que Deus coloca já na Bíblia Hebraica para que lá na frente todo o mundo, seja religioso ou não, o siga, como forma de poder conviver numa sociedade. De certa forma, essa lei é universal, não se conhece uma sociedade que não seja pautada por lei. Então, o tema, ou a forma e funcionamento do direito se aplica a forma judaica cristã de fazer teologia. Sendo assim, como pensar teologia dentro do direito, já que teologia cristã é direito?

     No cristianismo judaico-cristão o modelo civil para lidar com o pecado é a santidade. Nesse sentido, santidade é comportamento. Sendo assim, se alguém roubava não rouba mais e passa a trabalhar para viver do suor do seu rosto; se alguém mentia não mente mais e passa a falar a verdade etc., ou seja, passa a ter um comportamento diante de uma situação que lhe é posta. Somos pecadores, isso é pontual, todos somos pecadores e nos desviamos de Deus por conta do nosso pecado. Nessa linha, o modelo civil para lidar com isso é o direito. O direito existe porque a transgressão existe, ou seja, é porque existe o pecado que eu necessito ser santo, pois é o pecado que traz a transgressão.

   Os cristãos primitivos adoravam a Deus nos conformes da lei não somente porque eram nascidos judeus, mas sim, porque seguiam à risca as diretrizes de Jerusalém, onde a regra mosaica ainda era mantida e, somente a partir de Paulo, a Igreja começa a se afastar e se distanciar. Com a ascensão da missão, a Igreja se espalha pelo mundo daquela época deixando o judaísmo com suas regras para trás de uma vez por todas. No primeiro quarto do século IV, sob Constantino (salvo suas intenções políticas), a Igreja se fortalece e se firma. Mas é sob Teodósio I (347 d.C.), que a partir do ano 380 d.C., com o Édito de Tessalônica, faz com que o cristianismo se torne a religião oficial do Império Romano e, consequentemente, do Estado, ele foi o responsável por tal feito, apesar de muitos afirmarem que Constantino foi o autor de tal proeza, o que de fato não ocorreu.

   Todavia, não se pode omitir que apesar de Constantino ter tido um papel relevante, ele estava lidando diariamente com o paganismo  (o que não era algo tão simples assim para muitos cristãos genuínos) e isso para ele não era problema algum, pois os cristãos gentios daquela época eram antes, pagãos. Os elementos do paganismo estavam presentes e flertavam diuturnamente com a nova fé, que tinha em Constantino seu principal defensor político. O início das brigas  e muitas heresias obrigou a criação de concílios, essa fora uma das formas que a Igreja encontrou para solucionar aquelas quizílias. Foi através dos concílios que os credos passaram a ser elaborados com o intuito de saber o que de fato pensava a Igreja acerca de denominados assuntos e quais deles os cristãos deveriam conhecer e decorar para saber qual era a sua fé.

   É preciso frisar que apesar da ascensão do cristianismo, o Estado em geral lida com as questões da lei de forma diferente que a Igreja lida, e ela não pode ir na contramão do Estado, não pode esquecer que é um braço do Estado e também deve cumprir a lei, ou seja, a igreja deve responder por seus atos. Quando a comunidade da fé usa seu nome para lavar dinheiro por exemplo, ela transgride a lei e se houver essa transgressão o Estado poderá fechá-la e seu pastor poderá ser preso. Embora sirvamos a Deus e tenhamos duas cidadanias, civilmente, socialmente e politicamente, a cidadania terrena é um braço do Estado no sentido do direito, ela está ao lado do Estado para o serviço do bem e do que é legal.

   Portanto, a forma, o modelo cristão de pensar teologia é esse mesmo modelo, daí a importância do ensino da ética, da moralidade, do respeito pelas pessoas etc., vivemos numa sociedade onde existem regras, onde há pessoas que possuem propriedades e há pessoas desapropriadas de tudo, onde há cobiças, latrocínios, assassinatos; enfim, o homem é um transgressor e por conta disso  a lei existe para julgar o comportamento da pessoa baseado no que essa lei pontua.

   É interessante como esse modelo teológico também influencia o modelo de se fazer direito diante dos tribunais. Se um advogado tem um cliente e esse cliente lhe confessa um crime, se ele fala exatamente como aconteceu, o advogado tem mais condições de advogar o caso dele, ou seja, seu cliente tem um sigilo cliente-advogado, ele pode falar o fato como de fato se deu, e seu advogado entende como o fato se deu da forma como seu cliente lhe conta, lhe dá condições de criar e elaborar a sua defesa. Quando estamos diante de um caso que a apatia é perceptível, ou um caso patológico de uma pessoa que não se importa com o ato que praticou e não vê aquilo como um ato que lhe cause arrependimento, pois se no direito o arrependimento é muito importante, na teologia o arrependimento é fundamental.

  Quando estamos diante de uma pessoa que cometeu um dado delito como o latrocínio e percebemos que a pessoa que cometeu aquele crime não entendeu que a vítima não irá mais retornar, o peso da lei em relação àquela pessoa é extremo, pois é diferente daquela pessoa que confessou o crime no tribunal e demonstrou arrependimento. De um lado tem o advogado que o defende mesmo assim, do outro lado está o promotor que o acusa e o juiz que media, se a pessoa não mostra arrependimento e reluta em confessar, não obterá perdão, e as chances de absolvição são quase nulas; por outro lado, se a pessoa confessa e demonstra nítido arrependimento, ela terá chances reais de receber penas mais leves.

  Logo, é muito importante observar o comportamento do réu, se ele confessa e se arrepende em geral espera-se uma sentença mais branda, esse modelo é o modelo que se usa na igreja. Grosso modo, a teologia extrai esse modelo presente no direito, o trabalha e depois influencia o próprio Estado no seu modo de lidar com a justiça. Na história da filosofia/teologia, o avanço sempre se dá com o contraditório, por diversas razões sempre haverá embates, vezes porque não parece muito claro; vezes porque não se vê dessa forma. Mas essa divergência serve para melhorar, ampliar e afunilar o pensamento.

A AÇÃO DA GRAÇA DIANTE DA LEI/DIREITO

"Graça é todo e qualquer movimento de Deus sobre tudo que se move, respira e existe; seu propósito é salvar"
 
Vimos que a visão teológico/cristã trata em primeira mão da lei de Deus, por entender como já foi dito que as leis criadas pelas sociedades são baseadas na Lei de Deus, seguindo nesse itinerário não é difícil entender que a graça de Deus esteja em consonância com sua lei, já que as Escrituras Sagradas afirmam que a lei não foi abolida por Cristo, pela sua graça, uma vez que a graça também tem regras. Apesar de a graça ser algo que Deus dispensa gratuitamente, ela não é de graça e, no dizer de Bonhoeffer: "a graça não é barata"  (BONHOEFFER). Desse modo, detecta-se que a graça de Deus se manifesta através de movimentos que agem no interior do indivíduo pecador.

   Sendo assim, para que a graça venha agir no pecador que infringe a lei é preciso que por parte dele haja confissão, arrependimento e perdão, esses três movimentos são fundamentais para a ação da graça na vida do indivíduo. A graça barata como apontou Bonhoeffer, é aquela graça que nada custa ao indivíduo, que não exige renúncia de algo por parte dele, essa é a graça que muitos entendem por graça, mas que não leva o pecador a alcançar o perdão, não leva o infrator à confissão, ao arrependimento e ao perdão.
 
   O texto do evangelho como escreveu Lucas 15.11-32, nos dá uma visão panorâmica acerca dessa questão, a murmuração dos fariseus e escribas pela forma como Jesus se relacionava com os publicanos e pecadores (Lc. 15.1) o fez apresentar uma parábola para levá-los a refletir sobre o amor e a misericórdia de Deus. Na parábola o Senhor Jesus revela o modo como Deus queria que os fariseus aplicassem e vivenciassem a sua lei: Um homem tinha dois filhos (Lc. 15.11), o mais novo interpela o pai exigindo-lhe a parte de sua herança (Lc. 15.12). A herança lhe era legítima, mas a antecipação da mesma era uma demonstração de ingratidão, desrespeito e desamor pelo pai.

  Posto que no contexto histórico daqueles dias, aquele pedido feito enquanto o pai ainda era vivo representava uma grave ofensa cultural, era como se o filho estivesse desejando a morte do pai. Desse modo, a parábola vai além da revelação do amor incondicional do pai, ela também desafia as instituições sociais e religiosas daquela época. No contexto bíblico Neotestamentário, era comum a transmissão dos bens dos genitores aos herdeiros por meio de Testamento, de forma que tal herança só poderia ser repartida após o falecimento de seu autor. A Carta aos Hebreus diz:

"Porque onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador. Porque um testamento tem força onde houve morte; ou terá ele algum valor enquanto o testador vive?" (Hb. 9.16,17)

  Como visto, era natural que após a morte dos genitores seus filhos recebessem a herança, no entanto, um filho exigi-la antes que o pai morresse era algo inusitado e causa de espanto e escândalo. Não há na lei mosaica textos que obriguem os genitores de repartir a herança estando ainda vivos, mas a atitude daquele filho obrigou o pai a dar a parte dos dois filhos antes do tempo. Contudo, o pai não o obrigou a deixar o seu lar mesmo já tendo dado a sua parte da herança, o que demonstra longanimidade e amor por parte do genitor, mas foi o filho mesmo quem tomou essa atitude por conta própria:
 
"E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente." (Lc. 15.13).

  Se considerarmos que a atitude daquele filho se enquadra na lei de Moisés como rebeldia, chegaremos a conclusão de que aquele moço era digno de morte:  

"Quando alguém tiver um filho obstinado e rebelde, que não obedecer à voz de seu pai e à voz de sua mãe, e, castigando-o eles, lhes não der ouvidos, então seu pai e sua mãe pegarão nele, e o levarão aos anciãos da sua cidade, e à porta do seu lugar; E dirão aos anciãos da cidade: Este nosso filho é rebelde e obstinado, não dá ouvidos à nossa voz; é um comilão e um beberrão. Então todos os homens da sua cidade o apedrejarão, até que morra; e tirarás o mal do meio de ti, e todo o Israel ouvirá e temerá." (Dt. 21.18-21)

O pai porém, não fez o que lhe era de direito, ele renunciou uma prerrogativa legítima dada pela lei para dar ao filho o direito de decidir sobre sua própria vida ainda que tal atitude lhe causasse dor e ferida na alma. O texto de Lc. 15.14-16 relata a triste situação daquele moço como consequência da sua rebeldia. Todo a narrativa bíblica desenvolvida até aqui indica um final trágico para aquele jovem recalcitrante, mas a partir do próximo versículo o curso da história começa a se desenvolver para outro caminho e, a partir da atitude do "pródigo", os movimentos da graça de Deus começam a agir na vida daquele moço:

"E, tornando em si, disse: Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti" (Lc. 15.17,18). 

O arrependimento: "E, tornando em si...                                                                                                                              
O reconhecimento de sua miséria: "Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome!"

A atitude: "Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai...

Já em relação ao filho mais velho, quando o pai diz: 'Meu filho, você está sempre comigo, e tudo o que tenho é seu'. Ele quer dizer que, por ele já ter adiantado a herança ao filho mais novo, a partir de então, todos os bens pertencentes a ele (genitor) são necessariamente do filho mais velho.

  Seu estado de espírito denuncia seu arrependimento. Mas a forma de Jesus lidar com a lei nunca foi abolindo-a ou revogando-a, pois a lei fora dada por seu Pai. Verdade é que Jesus nunca tripudiou sobre a lei, uma vez que a lei fora dada por Deus e se ele revogasse algo dela estaria indo de encontro a seu próprio Pai, por isso Jesus nunca fez algum comentário contrário a lei, nem a aboliu ou revogou, sendo ele obediente a lei. Jesus interpreta a lei corretamente e cria uma abertura que faz tornar possível uma leitura mais humanizada para a lei, essa é a leitura da graça. Para os fariseus e escribas aquele jovem pródigo da parábola de Jesus tornou-se indigno de ser incluído novamente à sua família, mas para o pai a graça é muito maior que seu pecado, ela o alcançou e devolveu-lhe a dignidade de filho.

"Embora seu irmão (fariseus, saduceus e escribas) não o tivesse mais como um membro da família, o pai apresentado por Jesus na parábola nunca o desprezou como filho."

O intento de Jesus levou os religiosos a refletirem sobre si mesmos, sobre seus pecados, apesar daquele moço merecer a exclusão de seu pai, seus movimentos de confissão, arrependimento e perdão pela ação da graça o alcançou e ele foi perdoado.

O arrependimento se dá antes de obter o perdão, ou seja, é preciso reconhecer o que se está fazendo, é preciso entender que através de sua livre-ação o indivíduo coloca sua própria vida em risco e agora depende de um terceiro para poder ter chances de continuar vivendo. Isso deixa claro que o ato praticado o responsabiliza por aquilo que está lhe acontecendo, é causa da sua sentença.

"O arrependimento sincero é um sentimento que acontece dentro do coração, sem necessidade de expressões exteriores extravagantes para outros verem, antes, é a atitude de um coração aberto e transformado por Deus."

  Aquele moço precisava entender que seu ato o levou àquela consequência e esse movimento devia levá-lo à conscientização e arrependimento, ou seja, ele precisava confessar e se arrepender. Arrepender-se aqui é um movimento que o fez "cair a ficha", o fez entender seu ato e o quanto isso podia levá-lo à morte pela exigência da lei, seu pecado exigia justiça e a lei não podia ser omitida. Dentro do aspecto jurídico, só não necessitaremos mais de lei quando estivermos no estado eterno, com uma nova mente e corpo, pois enquanto aqui estivermos somos pecadores e, por conta disso, ainda infringimos a lei.

     Para além da lei, Deus manifestou sua graça através de Filho Jesus, a graça é a forma como lemos a lei de maneira a não torná-la só maldição, mas sim, absorvendo-a a ponto de dar oportunidade de fazer que as pessoas pensem e façam confissão, arrependam-se e recebam o perdão.

"Pecamos, e cometemos iniquidades, e procedemos impiamente, e fomos rebeldes, apartando-nos dos teus mandamentos e dos teus juízos; Sim, todo o Israel transgrediu a tua lei, desviando-se para não obedecer à tua voz; por isso a maldição e o juramento, que estão escritos na lei de Moisés, servo de Deus, se derramaram sobre nós; porque pecamos contra ele." (Dn. 9:5,11)

"E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra." (2 Crôn. 7.14)

   No entanto, quando se observa quais são os movimentos (Confissão, arrependimento e perdão) que a graça dada por Deus exige do infrator e o que ele precisa fazer em torno dela, as coisas começam a se revelar como não fáceis, pois o exercício de confissão, arrependimento e perdão dentro das igrejas têm se tornado cada vez mais difícil por parte dos cristãos. Noutras palavras, lidar com a graça no sentido teórico é legal, mas na prática, convivendo com pecadores, é muito complicado. Um exemplo disso está na dificuldade de aplicar o conceito da graça na perspectiva do direito quando temos um caso de adultério na comunidade de fé, esse é um desafio que surge não poucas vezes nas igrejas locais.

   As instituições evangélicas têm dificuldades diversas de relacionamentos nos dias de hoje, ou seja, em algum momento da história houve um arranhamento nos relacionamentos institucionais, algo que causou esfriamento. A dificuldade de lidar com o pecado olhando para a graça e a justiça de Deus ainda é visível na Igreja 20 séculos depois. Seguindo o texto em foco vemos o movimento da graça levando aquele moço a uma nova realidade, sua consciência o leva a reconhecer o mal que causou, bem como a se humilhar: "Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus empregados." (Lc. 15.19). Ele sabe do peso e da seriedade da lei e das consequências de seu erro, mas confia no coração misericordioso da pai, ele o conhecia.

"E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou". (Lc. 15.20)

  Eis aqui o ponto culminante do texto, onde a graça manifesta muda o curso daquilo que os ouvintes esperavam da parábola e a encaminha para uma dimensão sobrenatural e incompreensível, partindo do ponto de vista da reciprocidade: "[...] e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai e se moveu de íntima compaixão..." é a ação da graça de Deus indo ao encontro de um pecador rebelde, porém, arrependido, livrando-o de um castigo merecido e exigido pela lei, devolvendo-lhe a condição de filho amado por seu pai.

   O que ocorre a seguir em benefício do moço arrependido, são apenas consequências dos movimentos da graça sobrenatural de Deus a favor de um pecador, não entender nem aceitar o desfecho final da parábola é comparar-se ao irmão do pródigo, cujo pecado era imensamente maior que de seu irmão, pois mesmo sendo herdeiro de tudo e estando ao lado de seu progenitor, não conhecia o coração de seu próprio pai:  "[...] Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas..." (Lc. 15.31).

CONCLUSÃO

A graça é o olhar misericordioso de Deus sobre a lei que tem o poder de mudar os eventos da nossa vida para sempre; o inferno é o principal deles.

SOLI DEO GLÓRIA


Pr. José Verneques Santos
Presidente da AD - Ministério Paulista
Primeiro Secretário da COMADESPE
Graduado em Teologia IBAD/FABAD
Pós-graduado em Ciências da Religião FATEMIG/IBEMIG
Autor dos Livros:
.Jornada Ministerial
.A Suficiência do Evangelho de Cristo para Sua Igreja
.Igreja e Política, Caminhos Paralelos Para Alvos Diferentes
.Por um Discipulado Segundo Jesus Cristo
.O Deus Homem, A Incomparável História de Jesus Cristo

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